3 de out de 2014

Crônica Paulistana: Seta pra esquerda

É sim. É essa a nova moda que está - literalmente - nas ruas. Sempre um microônibus ou - com alguma sorte - um biarticulado de primeira linha no corredor destinado justamente a eles: ônibus. O problema não é sair do corredor para ultrapassar o colega que parou à frente no ponto (mas deveria, porque atravanca o trânsito, mas está dentro da lei, enfim), o problema é fazer isso sem sinalizar.

"Seta não é opcional", tatuei no antebraço direito e toda vez que um desses veículos me fecha assim, mostro minha tatuagem, na esperança de que consiga ler a mensagem.

O cara que me fechou ontem não viu. Acho que o celular o distraía...

Mas o fato é que descobri que tem coisa pior do que o meliante do corredor nunca dar seta pra esquerda: é ele dar seta pra esquerda sempre!

Afinal, nunca se sabe quando o colega da frente vai parar (não, luz de freio é para os fracos), então, não é mais lógico deixar a seta para a esquerda eternamente funcionando? Assim, o motorista que vem logo atrás fica sempre alerta, pois o da direita pode entrar a qualquer momento na sua frente. Ou não.

Uma vez um conhecido me disse que gostava de dirigir, mas que odiava o trânsito. Eu não odeio o trânsito, mas entendo bem o que ele diz. 

Trabalho perto de casa, de modo que acabo dirigindo pouco, mas isso não me impede de presenciar esse tipo de bizarrices diárias. E pensar nisso me trouxe a necessidade de registrar aqui os fatos nossos inusitados de cada dia.

14 de set de 2014

O sujo, o mal lavado e o shorts jeans


Sr. Nelson, 75 anos, já estava viúvo há quase um ano e reclamou:

- É duro estar sozinho...

E reclamou de novo:

- Mais duro ainda são as pessoas me julgando porque arranjei uma namorada. "Mal faleceu a esposa e ele já está de namorada nova", é o que eles dizem!

E Sr. Nelson franziu o cenho, descontente.

Pouco depois, entrou na sala uma mocinha bonita de shorts que fazia jus ao nome, short*.

- Olha só isso! Vê se pode a menina vir vestida assim aqui! Que pouca vergonha!

E o Sr. Nelson, que reclamava estar sendo julgado por conta de suas escolhas, julgava a mocinha pela escolha que ela fizera de shorts.

E eu, julgando o Sr. Nelson. 

De repente, eu e ele estávamos no mesmo barco.



* Curto, em inglês

4 de set de 2014

Sobre pessoas e árvores - generosas


Charlei, 23, me disse que tinha chorado de soluçar na Livraria Cultura quando, na seção infantil, leu "A árvore generosa". Eu, 27, chorei até desidratar também quando o livro veio parara na minha mão para que eu o tombasse (e ainda me dói o coração quando penso nele).

Adoro livros categorizados como voltados para o público infantil, mas que, na verdade, dizem respeito a qualquer ser humano. Poxa, acho que 90% dos livros ditos infantis são assim.

25 de jul de 2014

Diário: De como fui a última pessoa que eles viram.

Minha tarefa era a de desocupar as prateleiras das biblioteca: precisávamos retirar todos os dicionários e minigramáticas que não atendiam à Reforma Ortográfica, ou seja, que eram anteriores à ela.

Era algo bastante simples: catalogar o material num grande caderno negro, retirar os livros das prateleiras e encaixotá-los, para que fossem despachados.

Eu poderia ter atirado os livros do alto da escada para as caixas (a estante é bastante alta), mas não quis. Não pude. Ainda que não tivessem mais serventia e estivessem ultrapassados, eram livros. Lembrei do respeito que meus pais tinham me ensinado em relação a eles e à leitura e não pude deixar de olhá-los com um carinho secreto e solitário.

Não, eu não poderia tratá-los com desdém. Como se fossem qualquer coisa.

As palavras não são qualquer coisa. Nem a língua. As palavras têm força, forma e volume e podem encher facilmente uma sala ou uma piscina. As palavras são escolhas diárias, fugazes, permanentes. A língua é identidade, é quem se é.

Cataloguei os livros, um a um, encaixotei-os com um cuidado sem igual, cuidado maternal. E fui eu quem lhes disse 'adeus'.

28 de mai de 2014

Oferenda

Acordaram ao meio dia. Luxo de domingo. A garoa dançava com o vento e só não se punham a força dentro de casa por razão de janelas e cortinas. 

Acordaram ao meio dia. Fizeram panquecas:

- Mas eu não sei quebrar ovos! - ele dizia sob um leve desespero.

Comeram. Conversaram. Sentiam a vida fluir densa e doce. A seiva de uma árvore jovem. O mel não mais escondido e guardado num favo.

Ah! Era preciso levantar. Levantaram, mas não sem antes enrolarem mais um pouco na cama e colocarem-se a si mesmos em banho-maria do resto do mundo. O tempo não podia parar? O dia estava tão frio... Não podia o tempo congelar naquele instante? 

O mundo real os chamava lá fora: era a garoa dançando friorenta, com seu nariz vermelho.

Ah!

Levantaram. Meias e pantufas. Silêncio sepulcral de quem não quer acordar a si mesmo do sonho.

- Arrumar cama de casal é tão difícil para uma pessoa só... - ponderou com seriedade - Você não podia me ajudar... Para sempre?


8 de mai de 2014

Faithfully


Olhou-se no espelho depois do ocorrido e não se reconheceu: a cara fechada, os traços duros, o olhar sombrio. Não sabia por que continuava. Por que insistir? Talvez fosse sua fé secreta nas pessoas, na vida, em si mesmo. Afinal, não havia outra explicação possível para que um ser humano aceitasse tocar a sua vida como ele vinha tocando.

Fé... Fé? Tinha sim e, felizmente, tinha também sorte de não ser impulsivo, pois era um daqueles dias para se desistir de tudo.

[é, a fé é um troço perigoso...]

29 de abr de 2014

In bloom

Tuas flores de pétala e folha me conferem carne e osso e me dão um senso de simples realidade e plenitude e sei que sou de verdade - sendo isso o que quer que seja.

24 de abr de 2014

Diário: Desmistificação

Dois alunos conversam e um deles solta um palavrão.

- Como você fala palavrão, menino! - comento e me aproximo.

- Ah professora! - ele resmunga sem graça.

- Você sabe o que é porr*? - pergunto.

- Sei sim: é aquele negócio do café... - ele explica.

- Não, isso é borra. Porr* é esperma - explico

Pausa dramática.

- Você sabe o que é esperma? - pergunto.

- Sei.

Silêncio. 

22 de abr de 2014

Universo, fala comigo, por favor!



O universo deve ter ficado cansado de mim:

- De novo essa moça querendo um sinal? Afeeeeeeeee!

Ah, Sr. Universo! Não me leve a mal: dessa vez, eu nem queria mais todas as respostas, só precisava saber se eu estava no caminho certo, sabe? Tenho não trilha de farelos como João e Maria, nem tijolos amarelos como a dona do Totó. Sou reles mortal, veja bem. Pó de estrela como todos os outros reles mortais.

E por ser reles mortal, sei que não perderia seu tempo se chateando comigo, não tenho essa importância. Todavia, acredito que você é generoso o bastante para me mandar os sinais que tanto pedi - secretamente.

Pedi - e não perdi. Nunca perco, quase nunca, vai... Medo grande de "sempre" e "nunca". O fato é que eu tenho visto os sinais que tem me mandado e os recebo como quem recebe um velho amigo ou o filho pródigo que a antiga casa retorna.

E, tão feliz quanto receber os sinais que tanto pedi - secretamente, entre travesseiros, orações e sono - é saber vê-los com clareza, calma e a certeza:

- Sim, você está no caminho certo.

21 de abr de 2014

Medo de quem?

Eu: - Ei! Você tem medo de mim?

Ele: - Eu tenho.

Eu: - Uai!

Ele: - Tenho sim, mas só um pouquinho. E o medo que tenho de você me causa curiosidade. Muita curiosidade.

[...]

17 de abr de 2014

Das coisas que acontecem sem querer [1]

Ela estava brincando com a escaleta. Não que não tivesse nada mais para fazer, mas escolheu, naquele breve momento, fazer exatamente o que tinha vontade. Repassava diversas memórias, conversas recentes, decisões impensadas:

- Acho que deixei uma marca nele... - pensou sem jeito.

E, não sabendo se aquilo era bom ou não, simplesmente continuou brincando com a escaleta.

14 de abr de 2014

As pessoas boas a gente mantém por perto [1]

Tô escrevendo porque deu vontade e certas coisas em mim correm impulsivas num pulso só, numa única batida do coração - e por isso te escrevo.

Acho você um ser humano lindo. De verdade. Você tem uma delicadeza tão sua e uma maneira tão doce e concreta e - ainda assim - lírica de ver o mundo! Vejo algumas citações, livros, vestidos, docinhos que me lembram instantaneamente você, porque eles são muito... Claudia!

A palavra é... Encantadora. Você é encantadora. Acho que essa palavra dá conta de você: suas palavras,  seus gestos, seus modos, suas fotos, suas ideias. É simples, é isso.

Só queria deixar registrado aqui que você é tudo isso mesmo e que precisamos sim tomar um café para colocar a vida em dia.

Gosto muito de você...


13 de abr de 2014

A louça lavada tirou a minha cor


Quando ela fez a sua revelação, bem, eu vi a sua cara, a sua expressão enquanto lavava a louça. Ela desconversou, cantarolou qualquer coisa que não entendi. 

- Como é que é?

Continuou cantarolando com a mesma cara e eu ia me perdendo no meio da espuma e dos pensamentos.

- É sério?!

- Vai dizer que você nunca percebeu?!

- Não, não é assim.... É? Você acha? Eu sou tapada assim?

- Olha, a minha vontade é a de jogar essa panela na sua cabeça - ela disse sorrindo e completou - ou de esfregar o lado verde da esponja na sua cara.

- Esfoliante?

- É sim!

- Hum... Puxa...

- A melhor coisa foi a cara que você fez com o que eu disse.

- Não, foi a sua.

E estou matutando até agora sobre o que ela disse. E, possivelmente, estou até agora com a mesma cara.



12 de abr de 2014

Gosto de homens covardes

- Gosto de homens covardes - ela declarou secamente, antes de um gole do seu cappuccino quente.

Não entendi e ela percebeu pela minha expressão. Não foi a brisa da janela do Fran's café que me roubou qualquer reação: foi o que ela tinha acabado de dizer.

- Oi? - insisti.

Ela vez um gesto com as mãos de quem não sabe se explicar.

A conversa tinha começado:

- Melhor? - perguntei, passando o sache de açúcar com mensagem açucarada.

- Não - ela respondeu séria, o rosto sombrio.

- Deixa eu adivinhar: pessoas covardes.

Ela concordou com a cabeça e aí me veio com a pérola:

- Gosto de homens covardes.

Longa pausa. E eu, mais do que nunca, aprendendo a respeitar seus silêncios e lacunas e vazios.

- Não que eu procure pessoas assim: simplesmente acontece. Gosto de homens que se revelam covardes. Quando descubro que são covardes, já é tarde demais...

- Ah - respondi aliviada.

- E isso é tão... sei lá - disse fazendo uma careta.

- Sei lá?

- É, sei lá...

- Hum. Então talvez seja hora de você se interessar por homens que revelem outras coisas.

- Eu poderia me interessar por um homem que se revele... péssimo leitor.

- Mesmo? Você?

Ela me olhou pensativa:

- De que adianta sensibilidade com palavras se falta a sensibilidade para lidar com as pessoas?

- É - concordei, mascando o meu coração.


Tânato doméstico

Tinha umas violetas na janela da cozinha. Sabia que elas precisavam ser regadas a cada dois dias. Mas não as regava: ficava olhando-as murchar. As folhas caídas imploravam um olhar. E ele nada. Nada. 

Ele gostava de vê-las murchar, implorar, para depois renascerem água fonte de vida eterna. As violetas não eram eternas. Apenas sua vontade imperiosa.

Ele gostava de devolver-lhes a vida, regando-as com polida bondade. E elas, a semelhança de Estocolmo, agradeciam efusivamente ao seu algoz.

Aquela sensação de poder sobre a vida, a vida alheia, sobre a vida. Vida. Tirar as violetas da linha tênue e tenaz que as separava do sono sem sonhos, tendo ele mesmo as colocado lá.

Era boa sensação, sim, aquela de ter poder sobre a vida alheia - era como brincar de Deus. E ele achava  tudo aquilo justo e bom, já que Deus brincava com a vida dele.

6 de abr de 2014

Amor aos pedaços


Ele era um bom homem. E discreto. E silencioso.

Observou com uma preocupação tímida os pedaços esparramados pela casa. E ficou sem saber o que fazer. Não que não tivesse acontecido antes: era só que os pedaços nunca eram os mesmos e ele não sabia o que fazer dessa vez, como resolver.

Ele era um homem bem resolvido e, certamente, haveria de achar uma solução. Ponderou. Ouviu música. Saiu para andar. Alimentou os pombos no parque. Tomou banho de chuva. Fez a barba. Tirou no violão a nova do Apanhador.

E foi apanhando os pedaços pela casa, afinal, aquilo que já é morto começa a feder quando não enterrado - e ele já ouvia os abutres batendo com os bicos na janela de seu quarto:

- Viemos buscar o que é nosso por direito!

Então era preciso fazer algo. Terminou de recolher seus pedaços. A vida continuava. E ele continuava. Sempre gentil, mesmo quando triste, mesmo bicho ferido - no seu orgulho, no seu amor, na sua carne, no seu desejo. 

Respirou fundo. Arranjou cimento e disposição. Precisava de reforma. Juntados os pedaços, os caquinhos cobriram carinhosamente o quintal dos fundos. Sim, ele ganhou piso novo e agora já não havia mal cheiro. E quando um abutre veio lhe perguntar sobre o porquê de não ter enterrado os tais pedaços, ele respondeu:

- A memória é coisa viva e faz a gente ser quem é. Para que esquecer?

O abutre, que entendia de coisas mortas, entendeu e deixou o homem em paz. Foi embora pensativo. Quem ficou por ali foi o homem, também pensativo. E, de vez em quando, contemplava satisfeito a obra no quintal dos fundos. Dos caquinhos, conseguira fazer algo útil. Não um monumento à memória, mas...

- A memória é uma coisa bonita.

Ele era um bom homem. E um bom construtor. E mais do que um sobrevivente: ele era um ser vivente. 

2 de abr de 2014

Sujo ou encardido?

O fato é que jogou-se na máquina de lavar: quis testar na própria pele o poder de Ariel e dos amaciantes, sim, os amaciantes, pois era preciso amaciar a sua alma de brim.

Um dia fora tule, mas veja bem: tule é coisa delicada que deve ser lavada à mão. Não havia quem o quisesse nas mãos, não havia quem o tratasse com delicadeza. E, um dia, acordou brim, que guardava um encardido da vida. Ou era sujeira mesmo?

O balanço da máquina parecia uma canção de ninar e quase pegava no sono. Pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Ficava de molho um pouquinho e logo voltava pra lá, pra cá, pra lá, pra cá. Passados os dias de banho-maria, o molho da máquina não era nada. E logo voltava a ser ninado pelo modo "lavar" da máquina.

Enxague. Enxaguou. Desaguou. E a água não parecia acabar nunca. Deus meu! D'onde vem tanta água? Escoou finalmente toda a água: hora de centrifugar. Sensação ruim. Girava rápido e mais rápido. Enjoo. Barco viking. Sensação ruim.

Ufa! Fim de ciclo! Saiu e foi se ver no espelho...

Que surpresa a sua perceber que ainda estava um tanto quanto encardido (ou sujo?)... Cansado das promessas que não eram cumpridas - a do sabão em pó, no caso - não teve dúvidas: aconchegou-se numa bacia e foi quarar ao sol. 

31 de mar de 2014

Lázaro, o sentimenal

Luiza.

Olha...

Luiza.

Estava pensando aqui em você, Luiza, muito, e lembrei muito de um texto do Ivan Angelo chamado "Vai":

Quer ir? Vai. Eu não vou segurar. Uma coisa que não dá certo é segurar uma pessoa contra a vontade, apelar pro lado emocional.

E eu não sou disso - talvez você não soubesse e agora sabe - não sou de segurar. Foi por isso que você fugiu? Foi algo que eu disse? Ou que eu não disse?

Mulher é tudo complicado, mas você é mais Luiza, porque eu não faço ideia do que se passa com você. Nem vou saber, pelo rumo que as coisas tomaram, ou melhor, pela ausência de rumo - e tudo em você é ausência. Ausência perene. Porque dói, Luiza, de verdade. Você já devia desconfiar que eu sou um sentimental. Pronto, agora pode ter certeza. Te dou a certeza embrulhada em papel celofane vermelho:

- Olha, ela é sua. 

Ela e todas as outras certezas que já te sussurrei, te servi no jantar, te levei em forma de flor.

Não me importo, de verdade. Me chame de cafona, você sabe que eu não ligo para o que os outros pensam. Me chame de cafona, mas me ajude com a minha gravata, sim? Que ela não é mais a mesma desde que você...

Ela me olha pensativa e me pergunta:

- E Luiza?

E eu olho para ela com meu ar grave e passo a mão pelo meu bigode melancólico. Balanço a cabeça, dramático. Não me importo.

É medo? Nunca fui violento, ciumento nem falei de casamento.

Não me importo com seu medo, me importo em não ter merecido nem ao menos o seu "não" e agora fico aqui choramingando. Estou um chato - e ainda, de quebra, um triste.

Você dançava entre o "sim" e o "não" e nem o "talvez" você me deu. Eu poderia ouvir qualquer coisa, qualquer som de seus lábios. Mas qualquer coisa não é o mesmo que nada. E o silêncio impera e afasta mais nós dois, que tanto já estamos afastados. 

Só posso dizer que tudo isso me dá pena, tudo isso é triste e nós somos tristes. Triste como "Luz Antiga" do seu amado Nando Reis. Triste como ela cai como uma luva - e quem sofre é a minha gravata.

E, embora triste, ainda sou o mesmo, meu amor. Algumas coisas ainda são as mesmas. Mas espero que, um dia, você não seja mais a mesma, espero que passe a dar uma chance para as pessoas, para a vida e para as coisas que te fazem bem. Espero, de coração, Luiza, porque me importo com você de verdade.

E verdade foi tudo o que te mostrei até agora, desde o começo, desde o primeiro gole de sonho.


Ouvindo Milágrimas (Itamar Assumpção)

28 de mar de 2014

Tive meu dia de Cinderela

Tive meu dia de Cinderela: saí correndo, atravessando a rua e minha sapatilha ficou para trás. Olhei perplexa, mas não tive medo de voltar para buscá-la. 

Não tive medo de ser abóbora, de'le me ver abóbora (porque também sou abóbora) e nunca vou esquecer do modo como o olhar dele atravessou a rua e me acertou em cheio, quando já estava novamente com a sapatilha, já do outro lado.

Tentou hesitar, mas sem êxito: quis atravessar e me alcançar. 

Eu via como os homens  me olhavam com um encantamento espantado e temeroso - e eu sempre dava ombros porque aquilo não era problema meu, porque não somos responsáveis por aquilo que despertamos nos outros.

Dei ombros novamente: tendo a sapatilha em mãos, depois no pé, podia ir embora. Era hora de voltar às origens, à cozinha, ao mundo real. Eu não precisava de fantasia. Nem princesa, nem rainha, nem nada. Sonhos? Nem os de padaria. Passei a gostar do borralho, porque era aquilo que fazia com que me sentisse real, viva, de verdade, sabe?

O brilho do vestido foi ficando para trás, ia esmorecendo, assim como parte de mim - não nego. Todavia, meus olhos ainda brilhavam quando entrei em casa pela porta dos fundos.




27 de mar de 2014

Dias de pudim de leite

Cozinhou tanto em banho-maria que toda a água secou, evaporou, foi chover em outro lugar. Era muita água, era sempre muita água. E o pudim se leite foi escurecendo, amargando. Alguém chorou sobre o leite derramado (o que um dia fora leite, o que um dia fora água - veja bem que as coisas mudam...) que agora era lembrança de pudim. Mas pudim sem doçura, sem consistência, sem nada que lembrasse o que um dia tinha sido. E o choro que um dia havia se esparramado sobre o leite esparramado no chão aguou, enquanto o torrão amargo minguava e a fumaça fétida se espalhava pela cozinha.

26 de mar de 2014

Onde foi parar o medo?

Não sabia se era pior ter se metido com um dono de boca de fumo ou com um ex-dono de boca de fumo. O fato é que o tinha feito (segundo caso) e não pensara duas vezes. Bom, talvez se soubesse não teria feito nada, certo? E teria deixado o tal ex-dono aprontar com todo mundo como aprontava, certo?

Nada.

E ele era amigo no mais novo L.A. Legal, né? O rapaz gostou de saber, porque disso ele também não sabia, só sabia que os caras eram complicados e andavam mexendo com um amigo e todo o resto do pessoal. Não gostou. Aguardou. Conheceu os tais.

Havia certos momentos na vida em que era preciso levantar a voz, bater o pé. Em inglês, se diz "make a stand" e isso soa bonito. E o que ele, franzino, podia fazer?

Podia usar a voz firme, as mãos e o resto do corpo para dizer:

- Aqui não!

Só depois ficou sabendo do L.A. Só depois ficou sabendo do ex-dono da boca de fumo. Tarde demais? Ah, não tinha medo. Onde foi o medo? Que medo? Não houvera antes e não havia agora.

Estava resolvido. O rapaz franzino simplesmente riu e até agora espera, com muito pouco caso, o momento em que o medo volte para visitá-lo.

23 de mar de 2014

Incoerências [1]

A: - A vida é muito curta para se usar calcinha bege!

Silêncio.

B: - Ah, eu uso calcinha bege...

A: - Ah, eu também.

18 de mar de 2014

Diagnóstico: afetofobia

No consultório médico:

- Então, doutor, qual é o meu problema? Por que eu me sinto vazio? Por que não sinto mais nada? - pergunta o paciente.

- Você sofre de um mal moderno: a afetofobia - diz o médico sem dar importância.

- E é sério? - preocupado.

- Muito - diz tranquilamente, limpando os óculos.

- E tem cura? - ansioso.

- Não sei, eu é que pergunto: tem cura?

16 de mar de 2014

Entrelinhas de neon

Amanhecia. Os dois estavam olhando o sol nascer pela janela do quarto, deitados na cama. 

- Nós últimos anos, venho colecionando olhares. Olhares masculinos - disse ela, arrumando o travesseiro.

- Isso soa tão esnobe! - ele riu  - Então você acha que conhece bem assim a natureza humana?

- Ah. Acho que sei ver o outro, de verdade. Ler nos olhos as intenções, sabe?

- Sei - arrumou uma madeixa de cabelo dela.

- Quanto mais velho a gente fica, mais a gente aprende a esconder as nossas intenções, o nosso olhar. Mas conheço caras que olham para mim como se fossem adolescentes.

- E o que isso quer dizer? Que são indecentes? - ele riu.

- Ah! Nem tudo na adolescência é sobre isso - ela sorriu - A adolescência transborda, mesmo quando não quer. Não tem filtro. Mas tem gente mais velha que não tem filtro e aí fica ridículo - sentenciou.

- Você é muito dura. Porque alguém mais velho teria que viver nesse clima de continência e moderação? Por que a gente não pode ser passional?

- E quem quer ser passional? Dá muito na vista...

- O olhar de alguém também pode dar na vista, ora.

- Mas quem sabe ler? Quem quer ler? Está todo mundo muito ocupado com seu próprio umbigo, sua própria vidinha.

- Você é muito dura.

- Eu poderia passar a vida apaixonada por você e você podia nem reparar, por estar ocupado com seu mundo.

- Se você fosse passional e jogasse tudo abertamente eu ia reparar - ele considerou.

- Mas aí ia incomodar. Te incomodar. Me incomodar. É preciso ler nas entrelinhas e, às vezes, o que está nas entrelinhas brilha em neon.

- Olhar também incomoda - refletiu ele.

- E a ausência do olhar mais ainda - ela sorriu triste, se levantando - Vou fazer café. Quer chá?

- Mate.

- Ah! Acho que o olhar sempre entrega, mesmo quando você sabe mentir bem - ele ponderou.

- Não estou nem pensando em saber mentir, penso em esconder mesmo. Você diz uma coisa, seu olhar diz outra. Você diz uma coisa, seu olhar diz nada. Você fecha os olhos pra sonhar ou sonha no trânsito de São Paulo de olhos abertos e fica tudo na sua cara.

E foi para a cozinha.

O sol tinha terminado de nascer e iluminava tudo lá fora, assim como dentro da cabeça dele. Todavia, de um estranho modo, ele permanecia no escuro: não ousou perguntar a ela o que ela via em seu olhar. Havia o risco de ela acertar e ele não perceber.

14 de mar de 2014

Só alguém com que eu saí...

Quem era ele? Só alguém com quem ela saiu.

Quem era ela? Só alguém com quem ele saiu.

As pessoas estavam sempre de saída. À francesa.

E ele ficou triste.

13 de mar de 2014

Pudor adolescente

Ele: - Por que você riu?

Eu: - Seu pudor.

Ele: - Que pudor?

Eu: - Em vez de escrever o palavrão, você colocou aqueles símbolos dos quadrinhos.

12 de mar de 2014

Óculos multifocal - e lentes cor-de-rosa. Pode?

Hoje, um amigo, ao receber um abraço meu, disse:

- Você parece personagem de comédia-romântica...

Respondi brincando que tomava aquilo como uma ofensa. Ele riu e pediu desculpas. Pensei.

Pensei que se a gente fosse ou quisesse dar conta de tudo aquilo que as pessoas pensam, dizem e acham de nós, não nos sobraria tempo para nos redescobrirmos todos os dias. Porque sim, estamos sempre descobrindo coisas novas sobre nós mesmos. Acabo de descobrir, por exemplo, que bolacha de água e sal com maionese é gostoso.

É engraçado como algumas pessoas podem conviver por anos com você e nunca perceberem quem você é de verdade. Já outras, te leem fácil, tão fácil que você até se assusta. Acho que a percepção em relação ao outro funciona quando a gente evita uma interferência exagerada dos nossos achismos e tenta ver no outro quem ele é - e não a imagem que fazemos dele.

Todo mundo me fala que pareço ser mais jovem do que sou - o que é verdade. Mas também já me disseram, pelas coisas que eu falava, que parecia que eu tinhas uns trinta e oito anos. Não sei o que isso quer dizer, só imagino. Entretanto, penso que incoerentes que somos, quando não conciliamos aparência, idade cronológica e o resto.

Talvez ter trinta e oito anos indicasse maturidade. Eu não sei mais definir o que é ser madura ou ser adulta. Mas sei que sou as duas coisas porque a vida assim me exige. E também não estou preocupada em definir muita coisa. Antes eu achava que ser adulto era pagar as próprias contas. Depois, achei que era assumir as consequências das suas escolhas. Hoje, só sei que não sei. E isso não é ruim. Não saber não é ruim. E ser adulto vai além de contas e decisões. Além de autonomia também. Talvez seja a maneira de ver o mundo. Não sei.

Hoje falei mal da minha geração ao meu chefe:

- Ninguém faz escolhas. Não é questão de escolher mal, mas sim de não escolher nada - e consertei - Se bem que ao não escolher, você acaba fazendo uma escolha.

Ele me olhou muito sério. Ele me leva muito a sério... Claro que fui muito dura, às vezes sou. Acontece. Porque tomar decisões não faz ninguém mais maduro ou algo que o valha e, ainda por cima, dá a falsa impressão de que temos todo o controle sobre nossas vidas.

E o fato é que não temos. E não precisamos ter pressa, sabe?

Uma das melhores coisas que ouvi em relação ao que estou falando foi:

- Você tem a experiência de vida que uma pessoa de vinte sete anos pode ter. Ponto.

Um alívio pensar assim. O que pode parecer óbvio, mas nem sempre é.

O modo como vemos a vida diz muito sobre nós. O modo como julgamos as pessoas diz muito sobre quem nós somos. O modo como lidamos com os outros diz muito sobre o que merecemos.

E, neste exato momento, se me perguntassem como vejo a vida, diria que é com lentes cor de rosa e lentes multifocais: enxergo bem de longe, enxergo a meia distância e enxergo bem de perto e as lentes são cor-de-rosa, o que me faz ver o melhor - e não me iludir com palavras baratas e fáceis. Não é porque não expresso ou ostento minha tristeza e outros sentimentos negativos que não os tenha, apenas deixo o pacotinho pra lá. Porque a vida é curta para se cultivar ervas daninha

Não preciso de mais, nem de menos. Sou exatamente o que posso ser nesse exato momento e o melhor que já fui até o presente. Rumo aos trinta - e feliz. Porque se chove, é claro que uma hora para.

7 de mar de 2014

Com licença, vou lá fora sonhar.

Gosto de dizer seu nome composto saboreando cada letra, embora só te chame pelo apelido.

- Com licença, vou lá fora sonhar...

Alguns saem para fumar. Eu, para sonhar. Digo isso saindo, enquanto o discurso dos amargos da vida começa. A vida é curta demais para certas coisas. E te explico:

- É que aqui dentro já não cabe. É preciso sair para sonhar, porque é coisa demais por dentro que insiste. E insiste.

Olho as flores de fumaça dos fumantes que me acompanham do lado de fora. Flores que se dissolvem e espalham, como os sonhos que me tiram o sono. E ando por aí com essa cara pálida, olheiras fundas, mas um sorriso diferente. Estão até percebendo e me enrolo e enrolo e sorrio sincera. A vida é boa.

Você se emociona tão bonito e bagunça o meu cabelo já bagunçado. Olha para mim e faz com que eu me sinta a mais bonita, ainda que de cara (literalmente) lavada pela chuva. Chuva, vento e demais intempéries... O que mais faltou naquela tarde?

2 de mar de 2014

Clariciando


- Você não me quis. Eu entendo e respeito isso.

Ela quis dizer, mas não disse: qualquer coisa que pensasse, dissesse ou sentisse soava por demais dramática. E ela já estava longe dos palcos há algum tempo - e assim queria permanecer.

Naquela mesma semana, tinha se perdido à noite, num bairro perto de casa. Estava a pé e tinha seguido na direção oposta a qual queria ir. Pensou que aquilo deveria ser um sinal. Os sinais brotavam. Eram frutos que caíam doces e apodreciam dolorosos nas calçadas.

Viu as pitangueiras vomitarem pitangas - era a vida que se entregava, se oferecia e a ofendia asperamente. Pensou em qualquer coisa que tinha lido de Clarice há alguns anos. Flashback literário. E sensorial. Sentira-se mal quando lera o texto. Sentia-se mal anos depois, agora, olhando as pitangas doces e podres. Azedume da vida. Cheiro de fim de feira. Cheiro de fim. Fim.

Seus vermes internos lhe faziam companhia. Cantavam-lhe qualquer coisa doce que agora ela não podia ouvir. Também não tinha fome. A fome ela via nas pessoas simples sentadas nos bancos e no olhar de alguns homens que a encaravam. A mocinha de vestido azul e batom vermelho que passeava de pernas de fora e olhar triste triste atrás dos óculos escuros. Para ela, não fazia sentido despertar desejo em meio mundo se o dono do seu nada sentia...

[borboletas de abóbora se chocam contra folhas ásperas e duras - a harmonia da natureza]

Tudo Parque da Luz, com sua luz branca fria difusa. Com seus coretos encantadores e silenciosos. Com Diana semi-despida e pombas negras pousadas nas árvores. Trilhas de grama e lama. Pensou na flor-de-lótus. É, talvez houvesse solução para a vida.

A jovem coreana com um lindo bebê a olhava desconfiada.

- Que perigo eu poderia oferecer?

Perigo. Ameaça. Medo.

- Você 'tá com medo de mim? - e o seu olhar era de uma ternura ímpar.

Cazuza tinha fugido. Era mais do mesmo. Ela era outra, mas a história se repetia. Uma repetição que tinha ido além, bem além dos intermináveis solos de guitarra. E, em seu caminho, a natureza se repetia e agora via sementes abertas, espalhadas pelo caminho, ostentando suas vísceras. Pareciam cérebros. As ideias vazando? Não, não havia seiva nem secreção de qualquer tipo. Eram cérebros esmagados: os passantes cumpriam seu papel e passavam por cima das sementes.

Sem frutos.

E a mesma sensação de Clarice, a mesma das pitangas, as sementes sem pensamentos.

E ela, sem alumbramento, sem encantamento, sem assombramento. Sem.

26 de fev de 2014

Fluidos

Ele derretia. Gelo no verão de Cuiabá. E não quis permanecer nas mãos dela, em concha para mantê-lo próximo. Preferiu escorrer pelo chão da sala, escapando por debaixo da porta. Silenciosamente. Mas esfriou de novo e voltou a ser sólido. Agora era verão de Cuiabá no mundo dela. E ele quis mantê-la em suas mãos, em concha, como ela havia tentado com ele. Mas não dessa vez e ela se desfez em gotas gotas gotas pingou pingou pingou inundou e derrubou a porta. A intensidade vazou e ele não teve a chance de tê-la nas mãos.


Ela fluiu para o mar. Aberto.


23 de fev de 2014

Morfologia à dois

Transformei o seu nome em prefixo para os radicais dos meus dias. À essência da minha vida acrescenta-se a ideia do que é ser você - coisa que venho descobrindo pouco a pouco. Assim, o prefixo que se tornou seu nome, a cada dia, vai ganhando novos significados e mudando um pouquinho minhas segundas, terças, quartas e demais dias.

Seu nome-prefixo mexe na estrutura da vida cotidiana, no cinza da cidade, no voo circular das pombas sem acento circunflexo. Sinceramente, nem sempre muda tão pouco. Muda sempre alguma coisa, mas nada que latinos, gregos, árabes ou demais povos expliquem com seus afixos por nós herdados.

Seu nome-prefixo nem sei se tem a ver com língua e linguagem, porque Wittgenstein um dia disse que a língua dá conta de tudo aquilo que precisamos expressar, logo, não precisaríamos criar palavras novas Mas ele era muito radical, não? Porque não havia na língua portuguesa nome-prefixo que desse conta de você e expressar o que é ser seu nome-prefixo é fundamental, ainda que eu não dê conta da sua totalidade - e talvez nem mesmo você dê.

E nada vai arquitetando seu nome-prefixo, embora construa palavras novas e bonitas - algumas até engraçadas. É porque falta a ele a pretensão de fazer algo monumental e sobra o talento para as palavras novas de café-com-leite, ruas, vento, chuva, saudade, bossa nova, pão-de-queijo.

E enquanto Guimarães dizia que "a infelicidade é questão de prefixo", tento entender qual é o mistério desvendado do seu nome-prefixo.

Por ora, só sei que transformei o seu nome em prefixo para os radicais dos meus dias.

21 de fev de 2014

Prefixos perversos

A: - Tudo bem com você?

B: - Não, não está, mas tudo bem.

Olham o mar.

A: - O que aconteceu?

B: - Nada.

A: - Você parece tão.. Infeliz.

B: - A infelicidade é só um detalhe.

17 de fev de 2014

Diário: Personificando

- "As meias sentiram saudade" e "Os brincos ficariam inconsoláveis" são dois exemplos de personificação: a gente dá características humanas a seres inanimados. Provavelmente, quem sentiu saudade foi o dono ou a dona das meias. O mesmo vale para o dono ou a dona dos brincos.

- Okay, professora, mas quem usa isso?

- Ah... Eu uso. Usei ontem mesmo.

A pergunta é: Por que não usar? Por que restringir aos textos literários? 

Sempre melhor personificar do que objetificar.

16 de fev de 2014

Acalanto

Você mora no omelete e no pão de queijo de café-da-manhã - quase almoço, visto ser quase meio-dia. Aquelas coisas simples da vida, sabe? E também posso te encontrar em Caetano, Jorge Ben, Tim Maia, Coltrane, George Harrison, Gilberto Gil, João Gilberto, qualquer blues, funk, soul, jazz, chorinho, bossa nova... Qualquer canção cantor cantoria que te ilumine o olhar e te aqueça o coração. E você fala de amor, da vida, das pessoas, das coisas. Seu jeito de transbordar quando se anima, sua gentileza com estranhos e com conhecidos. Você mora na minha paz. Você mora no meu afago tranquilo morno sereno honesto. Você mora no meu riso quando fala de crianças e de sua falta de jeito para certas coisas. Você mora na minha vontade de te ver, te falar, te ouvir, rir junto. E você mora, acima de tudo, na simplicidade que a vida pode ter. 

E eu? Onde moro? Moraria fácil fácil no seu abraço - o melhor lugar do mundo para se estar.

13 de fev de 2014

Diário: Pluvibenção


Eu estava subindo as escadas e ela, descendo. Arregalei os olhos quando senti aquele saudoso cheiro de chuva chegando:

- Dona Sônia, vai chover! Graças a Deus!

- Ah minha menina - disse ela daquele jeito tão seu - Já está chovendo! - e riu gostosamente.

Apressei o passo entrei na minha sala correndo larguei as sapatilhas subi numa bancada de mármore coloquei os olhos e nariz na janela...

Chuva

[respira fundo]

Sorri contente: que o meu olhar carinhoso recebesse aquela benção de quinta-feira. E que fosse benção mais frequente.

- Fica, por favor? - pedi com doçura.

12 de fev de 2014

Pega mal? ou Afetofobia


Pega mal...  Dizer que a gente se importa? Porque... bom... Essa é a verdade, mas, às vezes, ela soa tão inconveniente e eu só imagino o porquê... Pega mal dizer que sinto saudade? Que é legal estar junto? Que eu quero ler meus poemas inéditos só para você? Pega mal ser afetivo? Oferecer o ombro pro amigo que precisa? Abrir o coração quando a tristeza aperta? Se mostrar frágil quando se está frágil e ser a fortaleza quando se estiver forte? Pega mal topar ser o porto seguro de quem te quer assim? E dizer 


EBAAAAAAAAAAAAAAAA

para quem te faz bem e vai te ver? Pega mal ajudar porque deu vontade? Ou perguntar tá tudo bem? quando o outro me chega tristonho, com cara de quem quer colo? Pega mal dar colo, pão de queijo, cafuné? E as melhores palavras que você puder encontrar? Pega mal você lembrar que sua amiga gosta de Zaz e avisar que a Zaz vai fazer show em São Paulo? Pega mal você virar para um amigo seu e dizer pow, você é minha alma-gêmea? E mandar um chamego, chocolate, bilhete? Pega mal mandar um postal para um amigo que você não vê há anos (recebi um postal desses)? E respirar fundo e buscar paciência quando a vontade de falar palavras de chumbo é grande? Pega mal elogiar e puxar a orelha de quem te dá liberdade? Pega mal dar liberdade e balas e risadas? Pega mal sonhar acordado? Pega mal dar presente fora de data comemorativa? Pega mal se importar?

Ah... Eu acho que não.

10 de fev de 2014

Angústia

As coisas vêm não se sabe de onde. E nem sempre se sabe explicá-las. Mas nada disso faz com quem  doam menos, com que incomodem perturbem enlouqueçam menos.

Não tinha mais vontade de viver, mas não queria morrer. Daria para ele ficar assim? Flutuaria entre céu e inferno, alheio a tudo aquilo pelo qual havia lutado a vida inteira. E a vida, ah essa menina batendo na mesma tecla triste e grave e lenta:

tum 

tum 

tum

- Socorro não estou sentindo nada....

Mentia. Engole o choro que homem  não chora. Mas chorava compulsivamente quando cantava Elvis no carro. Sem qualquer motivo. Não é porque não tem motivo que não está ali, que não dói.

Dói ouvir a mesma tecla sem se chegar a lugar nenhum. Sim, ele se perdeu e, estranhamente, não estava desesperado porque os sentimentos ruins consomem a gente, sabe? Era preciso e precioso se focar nos bons, mas... pra quê?

tum

tum

tum

Dobrara-se em mil. E nada. Um desânimo. Assolador. Nem ânimo para reclamar, declarar, declamar. Nada. Era todo vazio e silêncio. Silencioso, bebericava seu café sem que ninguém o notasse. Mas notavam e notaram. Sem perspectivas, sem planos, sem sentir que podia de fato fazer algo de bom pelo mundo e por si.

E não gostava de confete. Passou a evitar o contato social. Mas queria mesmo era evitar a si mesmo todos os dias no espelho do banheiro.

No verão, as noites deveriam ser mais curtas. Mas as dele não eram.

7 de fev de 2014

A senhora das moscas

Ela bonitinha. Sempre de rosa a saçaricar pelos corredores. Era a menininha do Vinícius e do Toquinho, só que um pouco maior: dez anos.

Uma boneca, era o que diziam. Uma senhorinha: sempre obedeci[d]a, sempre maviosa. Uma dessas crianças encantadoras.

Ficava no seu mundo de contos de fadas com bonecas e unicórnios brancos. Uma princesa.

Mas uma tarde, a mãe saiu para falar com a vizinha e a deixou sozinha em casa. Fazia muito calor e algumas muitas moscas tinham entrado pela janela da cozinha.

A princesa olhava com atenção as moscas que entravam, mas que não conseguiam sair: amontoavam-se desesperadamente na tela da grande janela da sala. Sem pestanejar, a princesa pegou o mata moscas e, uma a uma, foi matando os insetos com eficiência e frieza. Sorriu satisfeita.

As bonecas e unicórnios tinham perdido a graça: nunca tinha se divertido tanto na vida. Recolheu as moscas delicadamente, segurando-as pelas asinhas e jogando-as na lixeira do banheiro. Sorria radiante. Plena e contente.

Ela arruma o laçarote cor-de-rosa

3 de fev de 2014

Das coisas que brilham


Parecia ter quinze anos de novo: chegava em casa, largava a bolsa, tirava as sandálias e corria pra cama. Ficava lá deitada, pensando, sonhando, querendo, filosofando, tramando. E tinha voltado a rir sozinha.


O pote de sorvete gritava da cozinha:

- Me guarde!

Mas ela lá ia querer saber de sorvete? 

E se não guardava nem a si mesma, ia querer guardar sorvete?

Ele derretia na cozinha, ela, no quarto. Janela aberta e os pensamentos e fantasias contaminavam a cidade. Acordaria cor de rosa? Talvez. Queria expandir, voar, fluir pelo fio de água que escorria da pia do banheiro - os dois escovam os dentes.

Ela tinha olhado para ele assim, meio de lado, meio rindo:

- Me aguarde.

Uma promessa. Uma provocação. Um pacto. Era o que ele quisesse que fosse. Foram-se unindo as lacunas entre ambos, até não sobrar lacuna. E num jogo de ligue os pontos, as pintas foram sendo ligadas e no rosto dele se viu a constelação de libra. Ela riu, ainda segurando a caneta BIC numa mão e o rosto dele na outra.

Eram deuses, nada mais.




31 de jan de 2014

O amor supera o autismo. Oi?


Sou leiga, mas não tão leiga a ponto de me deixar levar pela novela das 9h.

- Ai bobinha, mas isso é ficção! Então encare como tal!

Possivelmente, estou sendo uma grande chata, mas sempre que a televisão retrata algo cujo conhecimento foge do grande público - clonagem, cultura oriental e autismo, por exemplo - assume uma responsabilidade maior ainda por aquilo que veicula. Ou não? 

Ora, o que a tevê retratar sobre esses assuntos será a única referência que muitas pessoas terão sobre o autismo, ao contar a história de Linda, sua família e seu marido (!)

Não estou dizendo que tudo tem que ser didático, gosh!, mas verossimilhança e bom senso teriam caído bem, não?


Acompanhei alguns poucos episódios, mas foram o suficiente para perceber que houve uma preocupação mínima em criar uma personagem coerente com o autismo.


A impressão que ficou (principalmente neste último episódio) é a de que

O AMOR SUPEROU O AUTISMO.

já que Linda conseguiu vencer vários obstáculos!

Ah... Mas é claro!

Me esqueci:

O AMOR SUPERA TODAS AS BARREIRAS [sono]

Há duas fontes bem mais confiáveis (dado objetivo) e muuuuito mais interessantes (dado subjetivo) para leigos como nós terem uma noção de como o barco toca para os autistas: o romance "O estranho caso do cachorro morto" e o filme "Rain man".

Ambas servem de alguma referência para ter uma noção mais real sobre o mundo dos autistas, esclarecendo fatos importantes e nos colocando um pouco a par de como as coisas funcionam para quem sofre desse transtorno. E essas fontes, sim, mostram amor e autismo, mas um amor muuuuuuuuuuuuuuito longe de qualquer coisa que vocês tenham visto em "Amor à vida".

Mas acho que a melhor coisa que já vi sobre o autismo foi o vídeo real sobre uma jovem autista canadense, chamada Carly. Obviamente, ela e a personagem Linda têm graus diferentes de autismo, mas isso não justifica a inconsistência da personagem.



Acho que se você se propõe a escrever algo, deve fazê-lo direito - ou não fazê-lo.

29 de jan de 2014

Cuidado, garoto apaixonado!

Não é nas suas entrelinhas que se vê o que se passa: é nas linhas do seu rosto quando você sorri.

É  a sua falta de jeito, de malícia de traquejo de vida mesmo. É porque o seu olhar brilha e você fica sem jeito quando falam em amor platônico. É porque você ri diferente, mostra os dentes. E fica quieto, tentando absorver tudo o que puder: perfume, palavra, promessa. É o seu jeito de olhar, incerto no meio de tanta certeza que transborda - os dedos tamborilando na mesa e todas as maneiras inimagináveis de chamar a atenção. Então faz graça. Quer fazer rir - quer e faz. E é tudo o que pode compartilhar agora. É o seu sossego costumeiro e sua inquietação repentina. E você acha que ninguém vê. Não sabe como chamar, como pedir, como ficar por perto. 

É porque os meninos também se apaixonam.



28 de jan de 2014

Sim, isso é a vida real [1]

De repente, despertou-lhe ternura. Coisa fina, coisa rara. Coisa que não se via desde a construção da arca de Noé - os bichos inocentes. Não era inocência, pois ela não existia mais. Eram jovens calejados na sua juventude de jovens adultos. E o mundo ainda guardava algum encantamento, oriundo, talvez, das primeiras esperanças perdidas.

Tinha uns dentes pequenos e branquinhos. E era emoção em estado puro - fosse para o bem, fosse para o mal. Mal? As sobrancelhas discretas e tinha uma coisa de abraçar as pessoas. Daí a ternura? Talvez. Talvez a gente absorva aquilo que o outro transborda.

A vida podia ser simples. E as coisas boas nem sempre dependiam de se correr atrás do que se queria: às vezes, era só uma questão de olhar o que estava debaixo do nariz, como cantava Itamar Assumpção - ou de, simplesmente, olhar quem estava sentado ao seu lado.

25 de jan de 2014

Brinde de copos plásticos

A: - Tá bom que não tem que durar pra sempre, mas tem que ser tão descartável?

B: - Do que você 'tá falando?

A: - Amor.

B: - Ah!

A: - Quê?

B: - Se é descartável você acha mesmo que é amor?

A: - Sei lá!

B: - Você é chata.

A - Ah! Você também.

E se dão as mãos.

Ouvindo Enquanto eu passar na sua rua (Selvagens à procura de lei)

24 de jan de 2014

Quem escreve quer ser lido (e eu sou!)

Quem escreve quer ser lido. E saber que alguém não só me leu, mas também se inspirou para escrever um texto é tudo o que se pode querer. E, nessa brincadeira, um amigo me fez um poema, inspirado num texto que fiz ano passado. Um texto que adoro de paixão. É legal ver que ele significou algo não só para mim, mas para outras pessoas também. 

Poxa, sou lida. E, em certa instância, levada à sério. Tem coisa melhor do que as pessoas te levarem à sério quando devem, na hora certa?

Ah!

Eis o poema que ganhei:

Ponha as palavras no gelo

(L.G. Prates) Para conservar o que foi dito Ponha as palavras no gelo Mesmo as quentes Congeladas Duram anos Guarde-as onde se guarda As lembranças mais incríveis Aquelas que não se esquecem E que quando precisar Se precisar Você saberá onde estão E abrigue-as em forminhas de gelo Separadas uma a uma Porque é no vão de algumas palavras Que estão algumas revelações.

22 de jan de 2014

A outra companhia do nariz - além do bigode


Era o medo.

E se o que eu quero está bem na minha frente? Bem debaixo do meu nariz? 

Era o medo.

A felicidade é uma criança que passa voando numa monark azul. Uma criança que não olha para trás.

Era o medo.

Mas a vontade de ser feliz era maior.

Ele deu meia volta e tomou aquele caminho.

Ouvindo:

14 de jan de 2014

LOOOOOOOOOOOOSEEEEEEEER!

"Elizabethtown", 2005
- É acontece... Com todo mundo, pelo menos uma vez na vida.

(isso não deveria ser segredo para ninguém...)

E muito me preocupa quem luta desesperadamente para sair ileso e quem surta e perde o rumo a cada fracasso com o qual se depara.

Não é que eu seja masoquista e adore fracassar (dã)l: o fato é que todo mundo fracassa. 

Fracasso tem a ver com tentativa:

- Só fracassa quem tenta.

Porque até posso viver a minha vida praticamente sem fracassos, mas isso só se eu não fizer muita coisa, não tentar muita coisa. A apatia pode ser bem confortável. Da zona de conforto a gente nem fala nada, né? 

Também não é que eu lide ultra bem com o fracasso, mas a gente faz o que pode, né? A gente aceita que não deu certo fica chateado - há vários níveis de chateação, é claro - e a vida continua. 


NÃO, o fracasso NÃO é o fim do mundo. O fim do mundo deveria ter sido na virada de 1999 para 2000 e depois em 2012 - e não aconteceu, então não vai acontecer agora só porque não atingi meu(s) objetivo(s). 

Claro que dói, bem sei disso, mas a gente pode aprender muito com o fracasso. E acho que dói muito mais quando você deu o sangue e... 

Me esforcei TANTO, como não deu certo?

No meu primeiro semestre de faculdade, me saí muito mal num trabalho final. Não foi nem tanto pela nota (baixa), mas foi pela crítica feita pela professora. Ela  foi dura e isso mexeu comigo: eu tinha me esforçado tanto e tinha gostado tanto do resultado do meu trabalho... E tinha feito tudo errado. O meu fracasso e a crítica dela me fizeram crescer muito. Muito mesmo.

Me esforcei TANTO, como não deu certo?

Pessoas, empregos, planos... Nem sempre o nosso esforço é o bastante para fazer algo dar certo - isso não quer dizer que eu vou deixar de me esforçar tsc tsc tsc. Nem tudo está na nossa mão, nem tudo depende de nós. Além disso, nem sempre estamos prontos para aquilo que queremos...

Cada vez mais, vejo pais que não preparam seus filhos para o fracasso. É como se, ao longo da vida, tudo sempre fosse sair conforme planejado, como se bastasse ter vontade, como se bastasse se esforçar.

- Eu me esforcei, como não consegui o que eu queria?

Esses pais, querendo proteger seus filhos, estão criando futuros adultos despreparados para lidar com o fracasso e para entender que ele nos faz crescer e amadurecer - e muito! No futuro, esses jovens possivelmente serão adultos para os quais o mundo vai se despedaçar na primeira coisa que fizerem e não der certo - e não tiver nem pai nem mãe para resolver.

Imagine que eu tivesse surtado com minha nota baixa e mobilizado meus pais? Poxa, eu já tinha os meus 17 anos, imagine o papelão! 

E sabe o trabalho do qual falei? Guardei até hoje: ele faz com que eu me lembre de várias coisas:

Comer uva passa faz bem!

1) Dias melhores virão. A vida continua. Tudo passa, até a uva passa

2) Todo mundo passa por isso. Não preciso me vitimizar (aaaaaaaaaaah que horror!) e achar que sou a última taça de cristal (tão frágil!);

3) Todo fracasso deve ser o ponto de partida para uma análise do que foi feito: tenho que melhorar na próxima vez? Meu caso com o trabalho, por exemplo;

4) Nem tudo está nas nossas mãos, então que eu me dedique sempre ao máximo, para garantir que a minha parte seja feita;

5) Não se torne um amargo mal-resolvido porque aí ninguém vai ter aguentar e, possivelmente, você não vai se aguentar;

6) Fracasso também tem a ver com a expectativa que colocamos nas coisas. Então, bom senso com as expectativas - não que isso seja uma coisa fácil...

E se tem um filme que fala sobre fracassos de uma maneira bonita e muito interessante é "Elizabethtown" (2005):




Não é porque é um dos meus filmes preferidos nem porque a trilha sonora é linda, mas porque ele traz uma reflexão profunda sobre fracasso, quais são as coisas (realmente) importantes e, acima de tudo, sobre a vida.

E, além de tudo isso, bom, é sempre tempo de recomeçarmos...

Ouvindo (naturalmente):




13 de jan de 2014

Impressionistas nada impressionados

Monet, 1879

- Nós não podemos ser amigos?


Eu devia ter peguntado antes de perceber quais eram as suas intenções, porque depois tudo se perdeu assim. .

Assim.

Mas como eu ia saber, principalmente quando era uma época em que eu estava buscando o meu lugar no mundo? Como ia ter ideia de que lugar ocupar na vida dos outros? Sempre os lugares errados - a insistência na primeira fileira - sempre o tempo errado - é cedo.

Às vezes, parece que faz muitos anos que nos conhecemos. E mais tempo ainda que não nos falamos.

Mas até que ponto falávamos mesmo um com outro e não com a imagem que criei para você e você para mim?

Tenho a impressão de que você foi embora com a sua impressão de mim. Mas também, o que mais eu poderia querer? Que você tivesse a minha impressão sobre mim? Não dá. Mas precisava deturpar tanto assim as coisas que você não entende?

Bom, mas acho que você entendeu que somos comuns, bem comuns mesmo.

No fundo, não somos extraordinários, a despeito do que nossa fachada ostente. Temos até nossos momentos de brilho e magia, como aquela vez em Belize, mas, na maior parte do tempo, somos tão comuns quanto o arroz com feijão daquele boteco no centro, lembra?

E, sabe, acho que ser comum pode ter o seu encanto. Ou talvez seja só a minha impressão sobre as coisas. E, mais uma vez, me vejo navegando, flutuando em impressões imprecisas sobre mim, sobre você, sobre o mundo.

Da sua parte, acho que leva impressões equivocadas de tudo o que vive, de todos a quem toca. Bom, talvez seja muita pretensão minha pensar que são equivocadas só porque não condizem com o que penso. Deve ser a minha maneira de lidar com o diferente ou...

De lidar com você?

De longe, todo mundo se entende. Agora experimente se aproximar e tentar perceber os detalhes dos outros. Os detalhes não existem. Ou, caso estejam lá, dissolveram-se espontaneamente. Sempre tem alguém que não sabe usar terebentina e estraga tudo. É tudo borrão. Ou talvez se crie uma nova forma de ver e pensar e sentir.

Bem...

Eu erro muito, sabe? Você também. Acho que estamos quites, certo? Talvez você erre mais do que eu, mas o fato de eu errar menos não me faz mais certa. Na verdade, acho que não faz muita diferença em quem está mais certo ou errado. Somos todos pó das mesmas estrelas.

E, ainda assim, tão comuns e com essa ocasional cara de tédio adolescente - queremos que algo aconteça. Bem no fundo, acho que queremos algo que nos tire da situação confortável na qual nos instalamos com o passar do tempo. Algo que desafie aquilo que nos tornamos - adultos?

Bom, é isso o que sinto, o que fica suspenso de tudo o que a gente viveu. Ou a impressão que tenho daquilo que vivemos.

Ouvindo: