29 de dez de 2013

O que te faz feliz?

"Suculenta" por Frau Forster
Mais uma vez retomo a pergunta - já tantas vezes perguntada, já tantas vezes respondida - só por que sempre me deparo com algo novo ou por que simplesmente pensar sobre felicidade é uma coisa que faz parte do ser humano?

Eu, que nunca liguei para plantas, fiquei de coração partido ao perder a plantinha exótica dada por Charlie, no dia dos professores. Fracasso doído, morte de parente. Eu, que nunca dei muita atenção para plantas, me vi ansiosa por comprar vasinhos de suculentas, violetas e outras plantas pequenas. Nasceu então uma nova necessidade: a de ter plantas em casa.

Casa limpa por mim me faz feliz. Cheiro de pinho sol, que me remonta a infância, imperando na cozinha e no banheiro. Almoço que você faz para uma grande amiga - e o almoço dá certo! Servir pizza ao amigo que chega tarde na sua casa faz bem (eu tava morrendo de fome!). Servir o outro faz bem.

Fazer o outro feliz faz bem. Entender que cada um tem o seu tempo: seu tempo de viver certas coisas e de entender outras. Às vezes, o outro, nem com todo o tempo do mundo, vai entender o que eu digo - o que não faz com que eu o ame menos.

"Reunião" por Frau Forster
Olhar com carinho para quem não concorda com você e para quem rejeita você e suas ideias. Como gostar menos do outro por causa disso?

Dar livros e mais livros com dedicatórias. Acertar no timing, no afago, na palavra, na música. Saber o que se quer e não se melindrar quando mudar de ideia. Olhar para antigas cartas, CDs, agendas e olhar com carinho para o passado, mas sem nostalgia, sem querer voltar no tempo. Aprender uma nova língua - que é aprender uma nova maneira de degustar o mundo. Curtir suas conquistas sem medo de inveja, olho gordo e afins, simplesmente porque você sabe que está protegido. Arrumar seus bibelôs de insetos como bem lhe dar na telha. E se desapegar de tudo aquilo que for necessário - incluindo os bibelôs.

Engraçado como algumas necessidades permanecem, mas outras vão embora para dar lugar a outras novas que vão surgindo. Deixei de precisar de muitas coisas e passei a precisar de outras. Acho que todo mundo é assim na verdade.

O meu olhar melhora o meu olhar
Com a felicidade é parecido: muitas coisas que antes me faziam feliz não fazem mais ou não fazem tanto. Bom, algumas coisas permanecem, mas vejo muita coisa nova brotando numa tranquilidade admirável, uma paz transbordante que escorre pelas janelas do meu apartamento, inunda o estacionamento e coroa as crianças que brincam.

O meu olhar também me faz feliz, minha maneira de ser, sentir, pensar e viver a vida. A cada dia que passa, percebo mais isso.

E você? O que te faz feliz?

Ouvindo (que também me faz muito feliz)



E, sem dúvida, 2013 foi um ano incrível. Obrigada.

1 de dez de 2013

Lulu, Adote um Cara e pessoas-objeto

Ser feminista não é tratar os homens como muitos deles vêm tratando as mulheres desde o início dos tempos. Não é devolver na mesma moeda por tudo que passamos. Quem faz isso não entendeu nada. E aí a menina vira aquela chata que diz que nenhum homem presta e pensa que as mulheres são superiores blá blá blá.

Antes de qualquer coisa, é todo mundo ser humano. E gênero é coisa culturalmente construída. Grande perda de tempo essa disputa mesquinha por poder, para saber quem está certo, quem tem razão.

Somos tão mais do que isso...

Dois sites sobre "relacionamentos" têm dado o que falar: o Lulu e o Adote um cara.

Pensei, a princípio, que a revolta masculina em relação ao Lulu era muito salseiro, mas me coloquei no lugar e vi que também não curtiria que alguém se visse no direito de me dar nota (oi?) sem o meu consentimento.

Porque o grande lance do Lulu é a questão não ter o consentimento do mancebo. E, se por um lado, no Lulu a objetificação masculina se dá sem autorização, por outro, no Adote um Cara isso é feito consensualmente, como se você escolhesse um prato no cardápio. É assim que a gente lida com o ser humano? Se o outro se colocar em tal posição.... Bom.

Isso me fez pensar uma coisa...

Sempre acreditei que ninguém deve ser tratado como objeto, independente de ser homem ou mulher. Mas o Adote fez com que eu me lembrasse que as pessoas têm seu livre arbítrio para escolherem ser tratadas como objeto, caso seja essa a sua vontade E aí, bom, não é da minha conta - o que não quer dizer que eu vá tratar o outro assim, já que não é a minha praia.

E, afinal, o que é um concurso de Miss? 

A participante é avaliada quase que inteiramente por sua aparência e recebe notas. Só que ela escolhe estar lá, escolhe ser avaliada, escolhe a posição ornamental. Agradável aos olhos. Sempre impecável. E quem sou eu para questionar isso?

Só que quando uma mulher escolhe uma posição ornamental ou uma posição de objeto, ela não fala só por ela enquanto indivíduo: fala por todas as mulheres que a precederam e é como se assinasse embaixo de todas as coisas ruins feitas em relação à mulher e colocasse por água abaixo todas as conquistas femininas.

Mas, ainda assim, é direito dela. O que posso fazer é assumir um posicionamento diante da sociedade e esperar que entendam que, do mesmo modo que o outro tem o direito de ser quem ele quiser (objeto ou não), tenho também o direito de ser um ser humano complexo e em 3D - como todo mundo é, na verdade, embora nem todos escolham se mostrar assim.

Então, o que aprendi com tudo isso? Se uma pessoa escolher se colocar na posição de objeto, é direito dela - desde que os demais entendam que não se pode generalizar e que eu, por exemplo, não sou assim nem encaro as pessoas assim. Por isso que acho que o Lulu deu esse problema: não é consensual, fato que não ocorre com o Adote.

E, por último (e mais óbvio), acho que homens não sabem mais lidar com mulheres - e vice-versa.  Na verdade, as pessoas não sabem mais lidar umas com as outras.


23 de nov de 2013

Vida Doméstica: Almoço de sábado [1]

Para Jack Sparrow

Cozinhar para uma pessoa pode ser uma coisa desanimadora. Entretanto, a parte boa disso é poder fazer coisas experimentais, da sua cabeça, já que a única cobaia, a única pessoa que terá que arcar com as consequências (leia-se resultado final da 'receita') é você.

Não poder se deter muito tempo na cozinha também pode ser um problema, já que, particularmente, estou sempre na correria. Então, o negócio é ser criativo, ter alguns ingredientes-chaves em casa e uma disposição mínima.

Segue então o almoço de sábado, que ficou beeem básico e beeem leve, mas que também me deixou beeem satisfeita.

Salada

1 pepino japonês
1 alface americana
sal
molho shoyu

Lave os legumes, pique o pepino e rasgue as folhas de alface. Acrescente um pouco de sal, mas pouco, porque o shoyo já é bem salgadinho. Aí adicione o shoyo.

Atum

1 lata de atum (de preferência em água, mas eu só tinha em óleo, bah!)
1 tomate (de preferência italiano, mas usei outro bah!)
1 cebola pequena (eu não tinha e não ia sair para comprar, mas deve ficar bom hehe)
sal
azeite
tempero pronto de cebola, alho e salsa.

Tempere com azeite o atum e o tomate picado. Acrescente o sal e o tempero pronto. Misture bem. Esse tempero é o seguinte: ele fica bem com qualquer coisa! 





E não tem sódio nem conservantes. Estou dizendo isso porque me ligo muito em temperos, só que alguns deles são verdadeiras bombas de sódio e daquelas substâncias não mui amigas do nosso organismo. 

Atum e sardinha em lata são coisas bem legais de se ter em casa. Pintou a fome é abrir a lata, temperar bem e você já tem sua fonte de proteína. E ainda dá para misturar com molho de tomate para o macarrão.

Para completar, arroz fresquinho! Lembrando que para arroz, é sempre o dobro de água, ou seja, um copo de arroz = 2 copos de água.

Fazer um almoço gostoso sem dramas faz parte da caixinha das pequenas felicidades da vida doméstica, daqueles que estão se virando bem e contentes.

20 de nov de 2013

Ela faz cinema

Despiu-se do último véu e viu:


...


Encarou-se com serenidade - e não como se tivesse feito uma grande descoberta.

Havia coisas que enterrara tão fundo em si mesma que nem mais lembrava, mas sabia que estavam lá. Era só passar a tarde deitada no quarto, o sol entrando pela janela sobre ela e era gato preguiçoso.

Mas a preguiça do corpo não era a preguiça da alma e ela pensava. Em tudo.

Por que esconder?

Porque era preciso. Não havia porque expor suas necessidades se ninguém parecia dar conta delas. E então se fazia forte. Um rochedo. Uma pedra no caminho alheio?

E mentia tão bem que parecia saber que não queria o que queria e que não precisava do que precisava.
E estava tudo bem.

Antes isso do que ficar para trás.

11 de nov de 2013

"You say good bye and I say hello"

Foi o tarô que me disse ou a sua mão cheia de calos, de tanto tocar violão?

Talvez nem precisasse de muito ou tanto: basta trocarmos palavra e já se vê que cada um navega numa direção. Eu, sempre com bússola. Você, sem você mesmo.

Estava cá eu procurando uma palavra para a massa amorfa que tudo virou. Se é amorfa, poderíamos dar a ela a forma que quiséssemos - só que não é bem assim. Nada bom, nada bem.

Nem inodoros, nem insípidos, nem incolores - transbordamos tudo isso, então não é daí que vem o que nos falta - e as nossas faltas. 

Achei palavras: inconciliáveis, improváveis... Incompatíveis. É bem isso o que somos (não?) e se o digo é com um pesar de fim de tarde, o sol se pondo, a noite esfriando.

Somos cheios de nãos, em prefixos, fixos nas concessões que não fazemos.

Simples como um novelo de lã, cujo fio, puxado do modo correto, é capaz de produzir belas tramas, redes, enredos, tecidos, encantos. Mas puxar errado é balaio de gato: um nó só sem nós.

Como então dividir a jangada e remar junto quando a direção é diferente?


27 de out de 2013

Onde mora o desejo

Ela parecia interessante. Os cabelos (longos?) presos num coque bem no alto da cabeça. A nuca ficava à mostra. Belo pescoço. O pescoço e todo o resto. A moça tinha um corpo bonito, arredondado e de pele (macia?) morena jambo.

Zeca olhava a moça de lingerie preta com grande atenção.

E ficou preocupado com aquela ousadia de ela estar ali assim, só de lingerie preta. De renda ainda! Ai ai ai... Mil coisas de passaram por sua cabeça, coisas que não comentaria com sua mãe ou com sua irmã. Era ousadia mesmo uma moça tão bonita numa lingerie tão rendada ficar desse jeito, se exibindo, como se ninguém estivesse olhando.

E Zeca olhava, que mais poderia fazer se não olhar o que estava ali, bem na sua frente, como se ele não estivesse lá?

Talvez devesse chamar a polícia para prendê-la por atentado ao pudor. Afinal, onde ela achava que estava? Tão a vontade, tão leve, tão ensimesmada, como se ninguém a estivesse olhando...

Divagava... O olhar perdido na moça bonita.

De repente, o telefone toca. Zeca larga os binóculos e vai atender. Com pesar, deixa a vizinha com sua lingerie preta no apartamento ao lado, para que ela possa continuar a ignorar aquela existência doída, pequena e abafada

Era no apartamento ao lado ou dentro de Zeca que o desejo morava?

25 de out de 2013

A hipocrisia está no besouro desesperado da sua sala.


Sou uma pessoa totalmente pró-insetos e não é que me peguei com pensamentos homicidas em relação ao inseto que invadiu minha sala ontem à noite?


Quase um OVNI! Era grande, dourado e barulhento. Zumbiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa ao redor da lâmpada de luz quente da sala:

- Ô meu bem, quer se aquecer com esse calor todo?

Fazia um calor miserável e eu tinha deixado as janelas abertas, ainda sem telas:

- Tela é para os fracos. E pintores! - pensei durante o dia.

As únicas telas que tinha são as de pintura e de nada me valiam.

Não, eu não ia matar o que quer que fosse - "o que quer que fosse" não me soava bem. Podia ser uma sonda alienígena ou apenas o começo de um terrível filme de terror, no qual a pacata professora tem seu apartamento invadido por insetos que entram pelos seus ouvidos! Argh!

Pensando bem...

Naaaaaaaaaah. Minha vida seria outro tipo de filme.

Sei lá, às vezes a gente acaba sendo incoerente no que diz, faz e acredita, né? Defendo os mocinhos de seis patas e aí quando eles se aproximam - literalmente - eu mudo meu discurso?

Aí eu olhei com carinho para o pobre coitado que rodava loucamente na sala e fui fazer meu chá. 

Quando voltei, ele não estava mais lá. Deixei o abajur aceso para ele e fui dormir. Pela manhã, ele estava deitado, de barriga para cima, no chão da cozinha. Esperneava, cansado. Não zumbia, cansado. Também, imagina a sensação das mariposas, besouros e demais insetos que ficam rodeando lâmpadas e afins, sem saber que nunca vão conseguir nada?

Pow, isso é triste...

Olhei mais uma vez com carinho para o meu colega estirado no chão frio, peguei-o delicadamente com um papel de papel toalha e levei- até a janela. De lá, ele voou para fora.

É... Coerência nos cai bem.

22 de out de 2013

Quinzinho e os ritmos

Ele falava rápido como um locutor esportivo, mas sempre respeitava a fala alheia. E sua caminhada acompanhava a fala: sempre rápida. Também não dirigia, voava. Todavia, as ultrapassagens nunca eram perigosas e nunca recebeu multa de trânsito.

Durante a semana, engolia a comida depressa. Jantava de pé. Mas fazia questão de saborear a sobremesa com toda a calma no mundo e, nos finais de semana, jantava com os amigos como se fosse um príncipe. Até ignorava o relógio - um segundo coração? - pulsando no seu pulso.

Pensava rápido, mas as decisões demoravam um bom tempo para serem tomadas: tudo meticuloso, tudo bem planejado. No amor, também era lento - quase parando para quem olhasse de fora. Era um tempo todo seu, como se as palavras e ações passassem por estágios de maturação e despertassem aos poucos, depois de um longo inverno. Ou saíssem voando do casulo.

Pois é. Os seus abraços eram demorados, mas as conversas ao telefone, breves: não gostava de falar ao telefone. Gostava de olhar para as pessoas com calma, mas tirava conclusões rápido demais. E nunca, nunca, cantava no ritmo certo - também dançava mal, fazer o quê?

Diferentes ritmos pulsavam dentro dele. Diferentes relógios? O relógio biológico já anunciava o primeiro fio de cabelo branco:

- Novo assim?





17 de out de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [3]

Ela tem seis anos e é a menor da turma. E, por isso, sempre a primeira da fila - ordem de tamanho. teve tanta coisa na escola que fazia muito tempo que a gente não se via. Quando me viu, ela saiu correndo, contente: me abraçou apertado, mas com sua costumeira delicadeza.

Sorriu.

- Senti sua falta, professora. Sinto falta de você como sinto da minha mãe.

Assim essas crianças me desmontam, pô!

O tipo de coisa que garante o dia, a semana, o ano, a vida.

16 de out de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [2]

Foi aos catorze que bati o martelo: vou ser professora. E assim foi feito.

Muitas coisas mudaram, muitas águas rolaram desde então. Trabalhei em diversos lugares, conheci muita gente e, acima de tudo, aprendi muito. Muito mesmo.

E, a cada dia que passa, a despeito das dificuldades (que, diga-se de passagem, existem em qualquer profissão), tenho certeza de ter feito a escolha correta.

"Nina,
Para uma menina com uma flor"

Foi o bilhetinho que acompanhou a rosa vermelha que ganhei de um grupo de alunos queridos. Eu tinha comentado sobre esse texto de Vinícius de Moraes e sobre como achava uma das coisas mais lindas e delicadas. É, eles lembraram - então sou ouvida de verdade! E toda vez que alguém se lembra de algo que eu disse em aula (e comenta comigo), fico feliz ao perceber que devem ser coisas importantes, porque eles se lembram  associam ao seu mundo.

E eu fico emotiva mesmo. A combinação pessoas + afeto mexe comigo, principalmente porque acredito que o afeto e a delicadeza são dois elementos importantes na docência. Acredito na importância dos vínculos e das trocas e valorizo bastante essas coisas.

E foi isso o que presenciei ontem, no dia dos professores: ex-alunos, que não vejo mais, me mandaram mensagens carinhosas. Atuais alunos com abraços apertados e palavras gentis. Até encontrei, no centro da cidade, uma ex-aluna de supletivo. Na verdade, foi ela quem me achou: reconheceu minha voz e lembrou de mim. E eu lembrei do nome dela. Agora... puxa vida... Isso faz três anos... Como pode? É porque foi importante, de um modo ou de outro. Importante para ela e importante para mim.

E, agora que vocês, meus alunos, descobriram o meu blog (!), só posso agradecer (aqui também!) por tudo, por fazerem parte da minha vida e fazerem da docência uma experiência tão única e especial.

28 de set de 2013

Hard to explain?

Eu não [te] entendo...
Tu não [me] entendes...
Nós não [nos] entendemos...

Até que ponto o negócio é difícil de explicar? Será que tem explicação mesmo?

Se pensarmos na história da humanidade, veremos que muitas coisas que não eram explicadas antes, hoje, são tidas como coisas relativamente simples. Até aí, maravilha.

Todavia, acho que o ser humano escapa a esse raciocínio: nunca entenderemos certas pessoas e/ou comportamentos. E a pergunta também pode ser: até que ponto tem o que entender? Porque se o outro não se entende, creio que muito pouco poderemos fazer por ele. Ou por nós, caso esse outro faça parte de nossa vida.

Você pode passar anos ao lado de alguém, tentando entender os porquês alheios... E nada! Nem uma písta, piscada de olho... Você sempre sendo jogado para fora da pista, do jogo... Nada de lógica, coerência, sombra de ideia do que se passe na cabeça do outro. E claro que o outro não verbaliza, porque aí ficaria fácil demais.

Deve ser mania de professor essa coisa de querer explicar tudo, nos mínimos detalhes. E esperar que os outros assim procedam também. Tsc tsc tsc.

Bom, na falta de saber o que fazer com o outro, serve de consolo conjugar:

Eu [me] entendo.



19 de set de 2013

Tira o olho desse corpo que me pertence!

A liberdade está no cabelo que você decide deixar livre - no vermelho furioso, nos cachos lascivos, no volume apaixonado. No esmalte fúcsia ou na sua ausência - ou na de qualquer outro esmalte. Na cara lavada, o rosto lindo com seus poros, pintas, pequenas imperfeições que vejo com perfeição, mas também como perfeição.

Por que amar menos o meu corpo? Este corpo que aguenta e sustenta e suporta?

Uma amiga querida me disse:

- Seu corpo é o seu templo.

E é isso! Meu templo. É preciso aprender a amar o próprio corpo, seus contornos, pêlos, volumes e ausências. Pensa em quanta energia é gasta cultivando a insatisfação com a própria aparência. É difícil as pessoas se aceitarem... Conheço mulheres super esclarecidas que lutam com o espelho por se colocarem níveis que simplesmente... Ah.

Não é uma questão de resignação, mas de amor mesmo.

Uma vez me disseram que era fácil eu dizer essas coisas porque eu era bonita. Sou uma pessoa de aparência comum e, de qualquer modo, o jeito como a gente se sente em relação a própria aparência, por vezes, tem mais a ver com o que temos por dentro do que por fora.

São as neuras que carregamos dentro de nós que interferem no que tem por fora. Legal, né? Então, talvez o negócio não seja operar os seios, mas o cérebro. É isso? Nah. Isso é ser radical e radicalismo não cola pra mim: torço o nariz e sorrio amarelo-descontentamento. Cada um sabe de si, certo? Mas enlouqueço quando vejo as mulheres enlouquecendo por causa da balança.

A gente cresce em meio a lavagem cerebral sobre o que é ser feminina, o que é ser mulhe. E, a despeito dos avanços, a construção de gêneros ainda é muito cruel. Ainda tem uma uma checklist que você precisa cumprir para ser aceita. Você precisa ter uma série atributos para ser mulher, ser feminina.

A campanha publicitária de uma determinada margarina cai como uma luva em toda essa discussão. Ao mesmo tempo que coloca todas as mulheres no "mesmo barco" na questão da preocupação com o peso (e em mantê-lo), mostra como as mulheres podem se sentir aliviadas ao constatar que as celebridades também engordam, envelhecem, tem pele de "reles mortal" etc. É um alívio ver que o outro tem defeitos porque isso nos aproxima dele, daquela famosa cujo cabelo não acorda como capa de revista. Esse alívio também é triste, porque a gente não deveria precisar dele.

Eu devia ter o direito de pintar, cortar e fazer o que eu quisesse com meu cabelo e assim por diante. Mas... Ei... Não é que eu tenho?! Assim como tenho o direito de engordar e, inevitavelmente, o de envelhecer.

Claro que tem que ver algumas questões de ordem prática como, por exemplo, o impacto de tudo isso no emprego (eu de cabelo rosa pink, por exemplo, poderia ser meio complicado), mas, mesmo assim, quantas não são as coisas que temos vontade de ser e fazer deixadas de lado porque...

- As pessoas podem pensar coisas...

O fato é que, inevitavelmente, seremos julgados por qualquer coisa que a gente seja ou faça. Ponto.

Se você é gorda, tem problemas. Se você é magra, tem problemas. E se eu escolher simplesmente ser feliz? Do jeito que sou mesmo sabe? Isso soa quase criminoso no nosso momento histórico de culto ao corpo.

Será que ser feliz como se é machuca tanto os outros? Será que o fato de sermos felizes como somos incomoda tanto assim?

Então tenho o direito de incomodar.

6 de set de 2013

Mais Melita por favor ou Por uma vida com mais Melita

Ele é um rapaz muito obediente: recolhe com cuidado tudo o que lhe dizem. Os colegas, os amigos, a família, a namorada, os vizinhos, os passantes, os estranhos. Recolhe com extremo cuidado e é estranho como não recusa nada do que lhe dizem, não se ofende, não reclama, não nada. Aceita de bom grado as preciosas sugestões, lições de vida, imposições, conselhos, ordens alheias.

Chegando em casa, despeja o conteúdo de sua mochila num enorme filtro escondido no porão. Por lá, vão descendo lentamente todas as preciosas sugestões, lições de vida, imposições, conselhos, ordens alheias. Um tempo depois, verifica o que sobra no fim do filtro. Tão pouco! Mas já é alguma coisa, não? Retira o que resta com o costumeiro cuidado e toma aquilo para si. Aí sim sai para a si.

Ele é um rapaz muito obediente: obedece suas vontade e, principalmente, seus pensamentos. É sagaz, mordaz, sarcástico... Quase cruel. Seu discurso é forte, suas palavras potentes, sua voz marcante, sua caligrafia agressiva. Aceita de bom grado as preciosas palavras, ideias, argumentos, imposições de sua mente.

Chegando em si, despeja o conteúdo do bolso da camisa num enorme filtro escondido no porão. Por lá, vão descendo lentamente palavras, ideias, argumentos, imposições de sua mente. Um tempo depois,  verifica o que sobra no fim do filtro. Tão pouco! Mas já é alguma coisa, não? Retira o que resta com o costumeiro cuidado e toma aquilo para si. Aí sim sai para a vida.

29 de ago de 2013

O ponto fraco de Branca Neves

Podia até parecer cristal - porque todo mundo confunde delicadeza com fragilidade -, mas não era. Mas também não se sabia do que era feita. E ela mesma só se conhecia como gente: carne e ossos. Nada de sangue. 

Cortou o dedo com papel e não sangrou. Teve namorado vampiro e nada tinha a oferecer - além de se entediar. Largou a carreira de pintora porque não tinha vermelho para pintar com sua orelha. E era de uma frieza ímpar. 

No verão e na primavera, as coisas melhoravam um pouco e ela abria uma fresta da porta, da cortina. De resto, não sorria, nem dançava, não tocava. Sem manifestação de afeto, mas sempre polida e agradável. Mas, de repente, agradável não era bom, não bastava para o mundo. E ela olhava para tudo isso com uma indiferença livre de arrogância.

No inverno, era insuportável, porque quem ficava por perto acabava congelado. Passou a colecionar estátuas de quem se aproximava e acabava picolé. Em seu castelinho, patinava por entre pinguins igualmente insensíveis. Rainha das Neves.

O seu olhar até podia ter nascido na primeira noite depois da Criação, mas que noite fria aquela! Dureza de aço que fatia o presunto, defunto amor de nós dois.

Os buquês que recebia, quando não congelavam, acabavam murchando - como o amor alheio. E seguia, assim, uma vida solitária e satisfatória.

Entretanto, satisfatório parecia pouco para a sua existência ártica...

E, quando se sentia assim, seu pinguim predileto parecia adivinhar seus pensamentos e lhe trazia o Vinícius:

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado...

Era então que derretiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaaa, vazava, transbordava do vestido (vermelho!?) e - ainda que por um breve momento - seu corpo era fluido e se esparrava pela sala, invadindo os outros cômodos, as casas vizinhas, os hospitais, supermercados... a cidade toda.

De repente, ela não era nem agradável nem sua vida satisfatória. Era completa e o excesso que escorria era porque suas mãos não sabiam (e queriam?) reter deter manter o que quer que fervilhasse dentro dela.

Todavia

uma vez que terminasse sua leitura

voltava o inverno 

mais frio

mais duro

mais distante de qualquer coisa... viva.

[aridez de deserto no coração dos homens]

28 de ago de 2013

Não é porque a gente não se fala sempre...

Para Arteira

Porque pensei em você. Doídamente. Doidamente. Pensei porque ouvi "Oração" e lembrei da sua voz resmungando:

- Detesto essa música: odeio gente feliz.

E a gente riu. Não, você não odiava gente feliz: era só seu jeito de dizer que aquela música não te descia. O que eu entendo, apesar de gostar da música.

Você casou, mudou de emprego, de casa. Muita coisa, né? Mas aposto que ainda usa os vestidos da Hering e tem aqueles ataques de riso quando a pressão é muito grande. Fazer o quê? Ano passado foi difícil, mas, no fundo, acho que tiramos de letra.

E a gente não se viu mais. A vida - fazer o quê? A gente se entende mesmo quando não se conversa. E silêncio preenchido com saudade tem gosto bom.

Porque pensei tão forte que acho que você ouviu e me mandou mensagem carinhosa, só para mostrar que, para você, funciona tudo do mesmo jeito.

27 de ago de 2013

Diário: Sobre o ofício de professor [1]

Pense numa criança de seis anos, uma criança difícil. Briga com os coleguinhas, xinga, chuta, bate, mata aula (sim) e mente - demais da conta.

Minha atenção, afeto, jogos, canções e histórias... Tudo ele rejeita. É arisco, rápido, escorregadio. Sempre correndo, asas nos pés. Quando viu, já foi. Oi?

Ele vem chegando e a gente já fica com um pé atrás.

Ontem ficou de castigo. Hoje ele vem para minha aula com seu ar malandrinho e seu olhar esperto - ele é esperto, muito esperto - se senta numa das mesas redondas com os colegas. Explico para a turma que em duplas, vão ler "A Cartilha do amigo". A ideia é um ajudar o outro, por isso se sentam em duplas - uns já estão lendo, outros têm mais dificuldades.

Ele se senta com um colega igualmente peralta. A princípio, os dois disputam o livro:

- Mas eu não disse que era para dividir? Pra ler junto?

Eles resmungam, mas obedecem - será que por causa dos combinados que fizemos há pouco? Circulo pela sabe e percebo uma certa agitação na mesa deles. Me aproximo:

- Lê pra mim? - peço com carinho.

Ele se arruma na cadeira, faz uma careta, toma o livro nas mãos e começa, lentamente:

- O... a... que letra é essa?

- 'M, de Maria. Depois vem o 'i'. 'M' com 'i' dá...

- 'Mi'.

- Isso.

- O... ami...go ilu... mi... na nos...sa... vi... é um 'a'?

- Não, o 'a' não tem essa perna esticada lá em cima. Isso é um 'd' minúsculo.

- Mas depois vem um 'a', né?

- Aham.

- Hum... O... ami... go... ilu... mi... na nossa... vi...da.

- Muito bom! Estou orgulhosa de você!

Minha alegria é tão genuína quanto a dele. É uma alegria diferente e partilhada, que faz com que ele se acalme ma cadeira e comece a tentar decifrar os enigmas que seguem nas páginas seguintes. E o seu rosto ganha uma expressão que eu nunca tinha visto.

De cinco em cinco minutos, vem falar comigo.

- Posso ler pra você? - pede.

- Pode!

E então começa sua leitura, muito lenta e cuidadosa. Às vezes, me pede ajuda com alguma letra misteriosa, noutras, eu mesma ofereço ajuda:

- É a letra 'q'.

Passa o resto da aula assim: encantado - com o livro, com a sua capacidade. E eu, igualmente encantada, só observando do outro lado da sala.

Quer levar o livro para a sala de aula:

- Você vai fazer outra atividade na sala de aula. Amanhã você continua lendo para mim, certo? - proponho.

Ele sorri e aceita. Seus olhos brilham. Como se um mundo novo de descortinasse diante de seus olhos. O sinal bate, as crianças fazem fila e logo vão embora.

Mas ele não. Ele se deixa ficar. Me ajuda a arrumar a sala. Se permite um cafuné.

 Seu olhar sobre si é outro. Seu olhar é outro. E o meu também.

Amanhã, vai continuar a ler pra mim.

E que outras histórias será que o estão aguardando?

P.S. o olhar dele é mais um para a minha coleção de olhares. ele vem chegando e, agora, dou um passo a frente.


23 de ago de 2013

Sobre o passado, o futuro e aquilo que tá no meio dos dois

Batidas na porta de casa. Cada fibra de madeira reconheceu aquele toque. Reconheceu a cadência, mas fingiu que não. Não queria abrir. Sua surpresa fingida ao constatar ele junto à porta. Cada fibra se arrepiou ao pensar o que viria pela frente. O velho senhor de outros tempos. 

Ela hesitou, olhando pela fresta da janela: "Bem que podia ir embora". Mas ele insistia, batendo suave e firmemente na porta. Os mesmos cabelos brancos, a barba longa e emaranhada, o olhar afetuoso e tranquilo. Não tinha envelhecido mais nenhum dia, como se tivesse parado no tempo. Pode o Passado parar no tempo? Parar o tempo?

Atendeu à porta. Ele sabia que assim ela o faria, pois era o passado, mas conhecia o futuro também. Lera qualquer coisa no restinho de chá da xícara dela  no último encontro, mas ela não quis ouvir. Era a teimosia de 'minha história faço eu'.

Ela sorriu educada, ofereceu-lhe a melhor poltrona e um café forte.

- Minha menina, te trago meus três filhos.

Olhou pela janela.

- Por quê? - desconfiança felina.

- Presente do Passado.

- E isso existe? Já vivi pretérito perfeito, imperfeito, mais-que-perfeito. O que vem agora? Não existe presente perfeito...

- Mas, minha menina, só pode ser perfeito quando for pretérito. Enquanto se vive não se vê.

- Não é a minha miopia que atrapalha.

Ele sorriu, paciente e paternal.

- É assim que você trata quem te traz presentes?

- Talvez não sirvam. Talvez não caiba em mim, talvez precise de barra, talvez precise de mais, talvez sobre muito, talvez não combine, talvez não agrade, talvez o gosto, talvez o susto, talvez a história...

- Então faça o ajustes necessários, mas são seus presentes - sorriu - confio na sua habilidade de consertar o que precisa de conserto.

Ela tomou um lento longo lindo gole de chá preto.

- E se...  E se não houver nada para ser consertado? Aí...

- Aí?

- Aí é que começa a aventura - ela esboçou um sorriso - talvez...

Pelas janelas abertas, entrava vento. Vento de coisa antiga com um quê de novo. Um quê de esperança.

19 de ago de 2013

Tá aqui dentro, pow!

Dividir uma casa não quer dizer ser dependente do outro, do mesmo modo que morar em casas separadas não quer dizer ser independente. É tudo coisa interna, sabe?

18 de ago de 2013

Conhece-te a ti mesmo e outras coisas

É batata: quando a gente diz que perdeu a crença em algo, acontece uma reviravolta e temos a crença reforçada com cola araldite. Também já não me importava muito com a crença quebrada, mas é susto na certa perceber que ainda há quem. É uma espécie de tapa na cara com luva de veludo: é macio, mas incômodo.

*****

A cobrança pela saída que não foi possível não soaria cobrança caso se dissesse:

- Tô com saudade.

ou

- Quero te ver.

Mas a ideia é ser chato mesmo e cobrar por algo a que não se tem direito - como se o chato fosse você.

*****

Você acha que sabe o que quer até conseguir. Aí você vira para o lado e murmura:

- Então, acho que não era bem isso...

Ora, o caminho para se saber o que quer às vezes passa justamente pela exclusão:

- Não sei o que quero, só o que não quero...

E muitas vezes você só sabe o que não quer quando consegue:

- Mulher é bicho complicado!

Não: o ser humano é bicho complicado.

*****

O tempo tira a graça de certas coisas - ou é a gente que vê a graça escorrer pelo ralo? Eu era muito mais..., só que não mais agora. Vi a moça no espelho olhar com indiferença. Uma indiferença educada e ponderada, mas ainda assim indiferença.

*****

O chato do momento é aquele que acha que te conhece como a palma da própria mão, mas mal se enxerga no espelho. Ele é sazonal: de tempos em tempos aparece um.

*****

Estão me mandando sinais: tomo lista e vão tomando corpo em forma de ação e mudança.

*****

Não tenho mais problema com coisas quebradas, principalmente porque não sou jogá-las fora. Gosto do conserto do que tem conserto.

- Ei! Tá me chamando de sujeito cindido?

E nada descartável. Nem copos de plásticos.

30 de jul de 2013

Dente-de-leão voa loooooooooonge

Da árvore que existe em mim, colho frutos redondos e maduros. Deles, tiro a polpa com a qual faço desenhos e escrevo cartas, bilhetes, cartões... A palavra que adoça, conforta, aquece e se espalha aonde quer que você vá. Mas se o gosto é doce como fruta, ela tem a pretensão da semente: dar frutos, muitos frutos! 

Talvez ainda flores na sua sala e raízes na sua vida.

P.S. espalhar minhas palavras por aí é como espalhar um pouco de mim pelo mundo.


29 de jul de 2013

Os três momentos

Para  Gata de Chapéu

Num primeiro momento, a ficha cai e você fica sabendo de fato quem é a pessoa. Todas as ilusões que você tinha, todos os achismos que você alimentou.... Tudo cai por terra. E aí você perde o chão. O outro não segue manual de instrução ou qualquer coisa que se considere coerente ou lógica.

Num segundo momento, você se revolta: o outro não é como você queria e não há como mudar isso. Já passou a fase do choque e você está na fase da raiva e da frustração. Você está desapontado, decepcionado (e culpa o outro, na maioria das vezes). O outro não segue o roteirinho que você traçou nem as falas que você tinha em mente.

Num terceiro momento, você aceita. E, sim, isso pode levar muito tempo. Aceita e entende o outro. Aceita que outro é daquele jeito mesmo e que não há nada de errado nisso. Relacionar-se com ele esperando que um dia mude ou fazendo com que seja outro a todo custo não funciona e, talvez, o grande desafio seja justamente saber até onde interferir sem desrespeitá-lo, sem invadir seu espaço. Entrar nesse espaço só quando convidado, sem querer colocar as portas e muros abaixo.

E, um dia, se percebe que é possível amar o outro mesmo quando ele não se encaixa naquilo que a gente queria.

P.S. E quantas vezes não somos esse outro?

27 de jul de 2013

Síndrome de Wendy

Esta síndrome pode ser definida pelo interesse ou envolvimento de jovens mulheres com rapazes que se recusam a crescer (muitos sofrendo de Síndrome de Peter Pan). Tais rapazes têm dificuldade de estabelecer um foco para suas vidas e parecem precisar de direcionamento. Equivocadamente, 'Wendy' acaba assumindo o papel de mãe do 'menino perdido', sem entender que não tem qualquer poder de interferir em sua vida.

26 de jul de 2013

E há quem acredite ainda na lenda da família tradicional...

[...]

A, a divorciada: - Não é que eu tenha algo contra os gays... É só que não gosto da ideia de ter que aceitá-los. Eles são como uma ameaça a família tradicional!

B, a irritada: - Família tradicional?!? Então, né... Isso não existe há muito tempo e também não é garantia de nada. Existem vários tipos de família que funcionam muito bem. Conheço mães solteiras e casais gays que funcionam muito bem e vivem em harmonia com o resto do mundo.

A, a divorciada: - Não tenho nada contra, não! Não não acho certo a gente ter que engolir essas coisas. Acho importante você buscar uma família que tenha pai mãe e filhos, sabe? Ter marido e essas coisas é importante. Eu mesma me sinto chateada de ver que não consegui ficar casada 25 anos casada, como todas as minhas amigas.

[...]

B pensava em como era feliz por A não ser sua mãe - nem sua sogra -, mas triste por perceber como algumas pessoas ainda pensavam. 

25 de jul de 2013

Síndrome do Lambari

Para o Professor Universitário

Você chama a pessoa para sair e ela não "pode", sempre tem uma boa justificativa. Você pergunta algo mais sério para a pessoa e ela sai à francesa, sempre consegue mudar de assunto ou fica enrolando e não responde sua pergunta. Em suma, você nunca consegue realmente se aproximar dela porque, de um jeitinho ou outro, ela sempre tem uma maneira de simplesmente... fugir!

Essa pessoa, mXX amigX, sofre da Síndrome do Lambari.

Os portadores dessa síndrome são "escorregadios" ou, como diz meu amigo Professor Universitário, são "lisos", ariscos. Claro que cada um vai ter os seus motivos para se comportar assim: falta de vontade ou tempo de sair, falta de interesse em travar diálogos mais sérios e de resolver certas questões (ele canta cantigas de ninar a fim de fazer seus problemas adormecerem, de modo que ele só tenha que resolvê-los daqui a um tempo) etc. 

Mas o que não falta ao portador da Síndrome do Lambari - também conhecida como Síndrome do Porco Ensaboado (tente agarrar um porco ensaboado pra você ver...) - são as explicações e o ânimo para se desfazer dos mais variados tipos de situações e convites.

Ele sempre ganha no futebol de sabão, pois sabe que caminhos percorrer para marcar o gol - ou simplesmente para se misturar a torcida e aí você nunca mais mais vê-lo!

Puristas

A: - Qual seu gênero de música preferido?

B: - Romântico.

A: - Romântico? Isso não é gênero...

24 de jul de 2013

In a lifetime

Ele esperou a sua vez na fila. Pacientemente. Serviu-se do arroz com feijão e da mistura. Mas ansiava mesmo pelas porções de felicidade, leve e colorida. Pegou três, que vinham em potinhos transparentes (todo mundo podia ver), e foi se sentar para sua refeição, muito satisfeito. Deixou-as por último e fez muito bem em assim fazer.

Uma semana depois, voltou e se deparou com o restaurante fechado. A princípio, ficou confuso, pensando sobre como as coisas iam ser daquele dia em diante. Como ser feliz de novo?

E então entendeu que já tinha tido a sua porção de felicidade pelo resto da vida.

23 de jul de 2013

Matutações [1]

I

Eu erro erro erro erro
Tu erras erras erras
Ele erra erra erra
Nós erramos erramos erramos
Vós errais errais errais
Eles erram erram erram

E só por isso ninguém merece um final feliz?


II

Queria saber como você se lembra daquilo que estou me lembrando agora...


III

Ele estão esperando o trem chegar. Os estômagos roncam, hora do almoço. Ele mexe no cabelo dela, fala alguma coisa bonitinha. Os dois sorriem - sempre sempre quando estão juntos. Ele hesita, mas arrisca:

- Me passa seu msn?

Ela sorri contidamente e escreve-o num pedaço de papel, não sem algum embaraço pelo ridículo do endereço.
Já por dentro, grita: ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!


IV

Fim de semana. Avenida Paulista. Uns oito ou nove anos:

- Mãe, esse cara nem parece o Elvis: olha o cabelo!

E dançava lek lek lek.

Humores

A: - Qual o seu tipo sanguíneo?

B: - Sanguíneo? Sou fleumático.

22 de jul de 2013

Aquilo que fica quando tudo vai embora

Guarde minhas palavras no bolso do paletó com as chaves do carro no buraco do furo da sua orelha nos seus ouvidos nunca atentos naquele camafeu de 1900 e Noé no vão da gaveta de meias debaixo dos cobertores entre seus dedos magros na sua barba bagunçada entre os álbuns de foto pelas ruas em pleno ar livre deixe-as ventar correr nos barquinhos de papel que soltamos anteontem (lembra?) que uma hora voltam tão tuas quanto minhas. Guarde na sua memória (mas não naquela que já se esqueceu do meu rosto, minha boca, meus olhos), guarde naquele cantinho onde você guarda o que há de mais preciso e precioso. Quando precisar, se precisar (tanto faz), já sabe onde estarão.

Guarde-as lá sim, é importante. Não porque fui eu quem as disse, mas porque foram ditas para você.


21 de jul de 2013

Platão, moço, o que faço com você?

A pergunta vinha quando não sabia o que fazer consigo mesma. Na verdade, sabia bem. Sabia o que tinha que ser feito. Sabia e fazia. Disseram-lhe que era hora de refletir. Bom, ela sempre refletia e decidia... Deixar no campo das ideias, porque trazer para o mundo real... Ah, meu bem.

Então...

A pergunta vinha quando ela não sabia o que fazer com você, Platão, que lhe falou do mundo das ideias e da idealização. Ora, o seu problema não era com a idealização, mas simplesmente com tudo aquilo que ficava tão melhor quando não posto em prática, quando não era transformado em ação.

Ela bolava o plano. Ela tinha a ideia, a vontade, o insight. Aí ponderava, analisava, pensava no depois, na consequência, tinha juízo, bom-senso... Ela era racional, pé no chão, a menina Terra do Caetano e tudo isso para...

Um dia lhe disseram que a gente precisava sempre ser o par maduro. Disseram-lhe isso em relação ao trabalho, mas e quando assumiu isso para vida? Ela torce o nariz, mas internamente já deu o veredicto. E olha com pesar...

Não é que aquilo tirasse a graça da vida...

É só que...

Nem sempre era fácil fazer o que era certo. Aquilo que precisava ser feito. 

15 de jul de 2013

10 coisas que eu já sabia, mas é sempre bom lembrar

1) Vontade: Vontade dá e passa. O mesmo para a saudade. Quando dá vontade de matar a saudade então, poutz, complicado. Mas, no fim, tudo passa - sem que muitas vezes você tenha que mover uma palha. A gente sempre vai ter vontades (somos seres humanos, não?), só não dá para atender a todas, por isso, eu escolho, escolho quais atender, quais guardar na gaveta e quais engolir em seco - não poderão ser atendidas por causa de X, Y e Z. Mas, quer saber, ninguém morre por passar vontade. Então, o negócio é deixar que elas passem por nós.

2) Vitimização: Um dia a ficha caiu e eu percebi que não era vítima coisa nenhuma de nadinha desse mundo. Faz alguns anos e nem preciso dizer como foi um dia feliz! Mas, mais feliz ainda eu fiquei ao me dar conta de que algumas pessoas, que antes eu julgava vítimas de certas situações, não eram vítimas de nada também. Afinal, estamos todos bem grandinho e aguentamos ficar sem o sucrilhos de chocolate, não? Principalmente, quando foi você quem esqueceu de comprá-lo - o que me leva ao...

3) Livre-arbítrio: Cada um decide o que fazer da própria vida. Cada um decide estragar a própria vida - e ninguém tem nada com isso. Posso até tentar ajudar, oferecer um ombro, um outro ponto de vista, meu coração numa caixinha de presente com fitilho, mas, como não está nas nossas mãos decidir a vida alheia. Uma vez me disseram que "cada um é problema seu" e não gostei, mas acho que entendi: o meu poder perante o outro é limitado e é essencial respeitar o espaço e as vontades do outro.

4) Sinceridade: Parte da população não sabe o que é e outra pensa que sabe. Uma minoria já entendeu. Sinceridade não é grosseria, não é bancar o bipolar, não é despejar no outro aquilo o que te incomoda em você mesmo. E dificilmente sabe-se lidar com gente sincera. Exemplos mil:  Logo de cara, o outro te conta como é e não entende porque você vai embora; o outro te pergunta como você se sente sobre determinado aspecto e, quando você diz, o outro perde o chão etc. Penso muito que o que pode machucar mais é como se diz as coisas, afinal, as palavras têm força. Contudo, também penso que ficar 'protegendo' as pessoas do que elas precisam saber e ouvir, usando palavras adocicadas e desculpas esfarrapadas não ajuda não.

5) Resignação: Olha, é um alívio. Um dos maiores alívios que um ser humano pode ter, ouso dizer. Não é o nó na garganta, o choro preso, as insônias persistentes, as lágrimas que desidratam, o drama inconformado das frases passivo-agressivas postadas no Facebook. Resignação é libertação, quando você reconhece: "Tentei e tentei, mas não deu. Tudo bem", mas é um "tudo bem" sincero - e te faz perder dez os quilos invisíveis que estiveram nas suas costas nos últimos anos.

6) Laços: Se um não quer, dois não atam. E sempre tem um espírito de porco para errar no verbo e atear fogo em tudo, só para ver o circo pegar fogo. O fato é que as pessoas temem se relacionar umas com as outras - e não estou só falando da relação homem-mulher. É individualismo demais e um medo absurdo de criar e aprofundar laços. Medo ou desinteresse, não sei, mas acho que é problema de qualquer modo. Tudo descartável e simples assim. Ninguém quer mais se doar. Não quer ou não sabe - o que é pior? Um amigo me disse que tudo isso 'dá trabalho'. Pois é, boas coisas da vida dão trabalho. Pessoas, por exemplo, e tudo aquilo que elas podem representar em nossas vidas. Mas... Livre-arbítrio alheio. Uma pena. Cada um se fechando no seu casulo, sem saber que nunca vai virar borboleta assim.

7) Silêncio: É uma benção, para todos os momentos, sabe? Vontade de falar o que vem na telha porque tá fulo fulo da vida! Mas 'cê sabe que não vai resolver, que de cabeça quente as coisas se complicam... Silêncio. Vontade de se despejar, abrir o coração, baixar a guarda, falar o que pensou, sonhou, planejou, fantasiou... Enquanto o outro tá preocupado com o jogo do Vasco e a breja gelada? Silêncio. Uma das maiores lições essa a do silêncio...

8) Especulação sobre a vida alheia: Na verdade, é muito simples: quanto mais você abre a sua vida para as pessoas, mais 'autorização' você está dando para que elas especulem sobre a sua vida. Logo, escolher com que se abrir é sempre uma boa pedida. Em contrapartida, há aquelas pessoas para quem você não se abriu, não escancarou a vida, não falou do seu mapa astral e, ainda assim, insistem em especular sobre a sua vida, sobre quem você é e tudo mais. Sabe aquela figura que acha que te lê bem? Pois é. Não contente em especular, verbaliza - para você, é claro. E, por ser educado, você não responde. Sorri internamente: Mais um que erra feio, tão feio. Nos enganamos facilmente em relação aos outros, um pouco pelo que o outro parece ser e um pouco por aquilo que nós projetamos nos noutros - nossas próprias fantasias.

9) Limites: Cerca elétrica nem sempre é necessária. São nossas ações e palavras, quando não a falta delas, que os definem. Isso pode parecer contraditório, mas, às vezes, é justamente a apatia e o silêncio que funcionam como limite. Seja como for, eu não usaria marcador permanente para estabelecer meus limites - a vida é imprevisível demais para taxarmos coisas como 'permanentes' -, eu usaria giz (colorido, naturalmente).

10) Data de validade: Acabou. Seja lá o que for. Sobremesa. Emprego. Casamento. Amizade. Bom, o fato é que acabou. E por que raios tem que durar para sempre? Lavagem cerebral desde a mais tenra idade. Chora chora chora até desidratar.

Aí, você pega o lencinho. E se enche de água de coco. E, um dia, fica tudo bem.

Nem todo mundo que é especial tem que ficar na nossa vida para sempre. A vida é passageira e, muitas vezes, são também as pessoas em nossas vidas. Em vez de maldizer o outro, por que não ver o que ficou de bom? É... Olhar o que ficou de bom... E seguir a vida, porque a vida é passageira e o negócio é passar por ela... dançando. O ritmo, você escolhe.

11 de jul de 2013

Parece ressentimento...

... mas não é!

Juro pra você! É só olhar pra essa minha cara de santa e ouvir o meu discursos sem os jogos costumeiros:

- Quer sinceridade mesmo? Aguenta o tranco?

Todo mundo diz que sim, mas é só conversa...

Sonhei que fumava um cigarro imaginário e que estávamos bebendo alguma coisa num café chique. Viu? Sou tão certinha (careta? bah!) que nem em sonho fumo pra valer... Então me ouça quando digo que não tenho ressentimento: o que sobrou é outra coisa. Olhei pra você com a cara que ainda não conhece e tentei me explicar:

- Não é ressentimento: a gente vive algumas coisas com as pessoas e gosta ou não delas (das pessoas e das coisas). Certas experiências ninguém vai querer repetir, né? Pois é... A gente não aprende com os erros? E quando certas situações e pessoas são erros?

[dói isso? bom, devo ser o erro de algumas pessoas, se serve de consolo...]

No meu lugar, você faria a mesma coisa. Se você aprende a lição, por que insistir no erro?


10 de jul de 2013

O que eu faço com você?!

Separando muita coisa antiga e alguma coisa nova, achei dezenas de coisas que não sei que fim dar. Não sei se me desfaço delas. Não sei se as coloco em uso. Tudo o que sei é que não faço a mínima ideia do que fazer com elas e que deixá-las nesta simpática caixa de papelão é um conforto, enquanto me decido.

Pena não haver coisa parecida para lidar com as pessoas com as quais não sabemos o que fazer...


9 de jul de 2013

Querido diário ou Era uma vez quando eu tinha [dezes]seis anos

Arrumando minhas coisas, me deparei com uns muitos antigos diários. Sete ou oito. O último datava de 2003 - eu com meus dezesseis anos. Olhei a caixa:

- Vou jogar tudo fora - exclamei descontente.

- Ah não! Isso é a sua história! - respondeu minha mãe, mais descontente.

Me deixei sentar no sofá, tomei a caixa e escolhi um para ver se valiam a pena. Ora. As memórias sempre valem a pena:

09/09/1997

"Oi, tudo bem?

Eu estou ótima, hoje eu aprendi [em vermelho] multiplicação de números decimais. Quando você não sabe de certas matérias você fica nervoso e tenso! Mas eu já sei!"

Erros de ortografia razoáveis. Mau uso das aspas. Mas, às vezes, bem que acertava:

10/09/1997

"[...] Hoje, meu dente caiu, ele já estava mole à (sic) um tempo, eu estava tomando o meu lanche e eu esqueci que o lado direito da minha boca tinha um dente mole, então eu mordi uma bolacha wayffe (sic) e senti algo na minha boca e senti um sangue na minha boca. Então eu fui com duas amigas, Tamyris e Clarissa, lá na secretaria me deram um algodão e eu coloquei este algodão no dente e quando voltei pra casa eu tirei o algodão e lavei o meu dente e guardei numa caixinha e pronto. Eu tenho uma 'nova janelinha'"

Eu me apresentando (?) para um dos meus diários:

Sou de "peixes"

Oi?

Minhas pequenas preocupações:

22/09/1997

"Olá, desculpe, eu não tenho escrito, eu ando cheia de problemas, como a escola causa problemas!"

E relatos bastante jornalísticos e imparciais:

28/02/1998

"[...] Ontem minha irmã derramou sorvete na roupa. Ela levou uma bronca"

Isso antes dos intermináveis capítulos de drama adolescente. Li algumas coisas para Charlie:

- Daria um bom seriado adolescente! - ela me disse.

Achei tudo muito bobo, na verdade, mas acho que é normal olhar para trás e ver como alguns dramas eram bobos mesmo - o que me faz pensar que daqui a algum tempo, vou olhar pra trás e achar várias coisas atuais bem bobas.... É, a vida é assim mesmo. Pelo menos assim espero.

Encontrei listas do que queria ser quando crescesse, causos sentimentais, desenhos, adesivos, canetas coloridas, broncas, mágoas e as pequenas grande vitórias... E, engraçado, eu falava com os diários como se falasse com mais alguém e não comigo mesma - o que me fez pensar se as outras pessoas que escrevem diários o fazem como eu fazia.

Não sou muito de nostalgia, mas valorizo muito a memória - afinal, ela faz de nós aquilo que somos hoje, certo? Sou quem sou e conquistei tudo o que tenho hoje pelas coisas que vivi, pelas minhas experiências. Estou sempre reclamando sobre a supervalorização da experiência, mas, na verdade, no fundo, ela me é essencial mesmo.

Engraçado, entretanto, perceber o que não mudou: meu gosto pela escrita; a necessidade de registrar o que é vivido, sonhado, pensado; a mania de ficar rabiscando, desenhando não sei o quê; e, talvez acima de tudo, meu prazer em contar histórias.

P.S. Resolvi não jogar nenhum diário fora (talvez um dia até leia para os meus filhos, caso os tenha)

8 de jul de 2013

Metamorfose ronronante

Eram pintas novas surgindo todos os dias. Ela só demorou para se dar conta. Na pálpebra esquerda, na orelha direita, no lábio superior. Ao redor do umbigo e do seio direito. Nas costas, ombros, mãos, joelhos. Nuca.

Pintas, não sardas.

Era aquilo sendo fomentado todo dia. Ela só se deu conta quando um dia acordou e, esfomeada, devorou Marquinhos, lado direito da cama. Tinha virado bicho. Garras e presas e uma pele toda pintada, que parecia ter sempre sido sua, só sua.

Nenhum desconforto, nenhum estranhamento: era como se voltasse a ser quem era de verdade. Onde aquele seu eu tão único tinha ficado por todos aqueles anos?

3 de jul de 2013

Laços, tesouras e papel de presente.

Para a moça de Limeira.

A: - Não.

B: - Não o quê?

A: - Não quero.

B: - Não quer o quê?

A esconde suas mãos nos bolsos.

B: - Ah.. Isso? Por quê?

A: - Já prevejo as algemas e a sucessão de aprisionamentos.

B: - Algemas? Algemas onde, meu Deus?

A: - Aí, dá pra ver pendente do seu bolso.

B olha o próprio bolso - sabendo não haver nada - e não vê nada.

B: - Devem ser algemas imaginárias, só você vê. Sem gaiolas, sem algemas, sem contrato assinado e carimbado em três vias.

A se esconde atrás dos óculos escuros.

A: - Não sei não. Você vai acabar podando a minha liberdade, tenho certeza. E isso eu não permito.

B: - Mas é você quem está falando de algemas, não eu. Se você topasse se arriscar, eu poderia te mostrar como as coisas funcionam pra mim. Já expliquei, mas explicar é diferente de viver.

A: - Melhor não. Sou ainda jovem demais e não quero em apegar a nada nem a ninguém.

B: - Ah. Entendo. E respeito isso.

Silêncio.

B: - Bom, se você pensa assim não tem nada que eu possa fazer. Sei da minha capacidade de persuasão, mas também sei que ninguém muda ninguém. A vida é muito simples. Não sei se o seu negócio é medo, neura ou desinteresse mesmo.

B sorri, triste. Tesoura em mãos.

B: - Mas, seja como for, não me serve.

A: - Ei! O que você fez?!

B: - Cortei o laço frouxo que juntava a gente. 

28 de jun de 2013

Importância

A: - Gostei bastante.

B: - Do quê?

A: - Da sua festa.

B: - Você foi à minha festa?

A: - Fui.

B: - Jura?


P.S. Primeiro dia de férias *fogos de artifício*

26 de jun de 2013

Como sair de cena?

Tem gente que faz um escarcéu, necessidade de confete, atenção, salseiro. Tem gente que só sai depois de ter saído no murro, cansado de dar murro em ponto de faca. Tem gente que faz o outro sangrar, dá uma meia dúzia de pontinhos e vai embora. Tem gente que enrola, faz cara de cachorro sem dono e desiste de perseguir o próprio rabo. Tem gente que sai desidratado de tanto que chorou [um copo d'água?]. Tem gente que sai vegetal: sem demonstração de emoções. Tem gente que se arrasta para fora dos cômodos e da vida alheia. Tem gente que fica por inércia e sai por inércia. Uns se explicam demais, outros, de menos.

E tem uns que...

ei

Aonde ela foi?

Partir pode ter a ver com a hora em que a gente bate o martelo e decide:

- Já deu o que tinha que dar.

Mas também acontece mais naturalmente, quando o quer que seja perde o encanto, a graça.

25 de jun de 2013

O que faz com a saudade?

A: - Às vezes me bate aquela saudade...

B: - E aí? Você fala com ele?

A: - Não, ouço Milton Nascimento.

B: - E aí vai falar com ele...

A: - Não. Ouvir Milton resolve.

B: - ...

19 de jun de 2013

Intimidade

Para o Fã do Clube de Esquina

Era uma quinta-feira preguiçosa e estava deitado confortavelmente, esperando o tempo passar. Folheava um livro qualquer sobre um assunto qualquer. Entediado. Do sofá, dava para vê-la na porta do banheiro, diante do espelho, fazendo não sei o quê. Lembrou-se de perguntar sobre o último filme do Coppola. Não que aquilo não pudesse esperar, mas não tinha nada para fazer - coisa rara. Na verdade, esperava.

Foi até o banheiro e encostou o corpo esguio no batente. Olhou para ela. O rosto estava limpo e ela se olhava séria. Sóbria e séria. Ela encarou de volta e os olhos de ambos se encontraram no espelho. Mas o que viram na verdade?

Não trocaram palavra.

Ela engoliu em seco aquela invasão. Sim, porque o olhar dele, naquele momento, era mais perscrutador e incômodo do que o olhar de qualquer fotógrafo para quem já tivesse posado. Seu espaço pessoal sendo tomado pelo olhar de quem não tinha com ela intimidade e, ainda assim, insistia em pegar um banquinho e se sentar do lado de fora, mas, ainda assim, olhando. Os olhos voltaram a se encontrar no espelho após a primeira camada de pó, mas ela fingia que não via. Fingia mal. Via mais do que queria.

Mas o que via[m] na verdade?

Talvez por ele ser a antropomorfização do desapego, talvez fosse a sua relação com a liberdade, seu conforto morno dos sapatos antiquados, o cabelo em charme desalinhado... Deixou que ele ficasse e olhasse - não sei o quê. Na verdade, ela não sabia porque ele estava ali. E ele também não sabia.

Se ela tentasse explicar, ele não entenderia. Não entenderia que o momento em que vestia ou tirava qualquer máscara era algo terrivelmente pessoal e algo que ela não costumava compartilhar. Era como se ficasse vulnerável, embora os seus superpoderes residissem em outro lugar. O olhar. Um olhar concentrado agora em marcar os olhos e esfumar as pálpebras. 

Ele não entendia, apenas olhava o que ela fazia. E, apesar dos olhos agora estarem diferentes, a dureza do olhar dela ainda era a mesma, ainda que misturada a alguma coisa que ele não soube identificar. Viam e não viam.

A insistência do olhar alheio sem motivo justificável já era por demais incômoda, aquilo então, um abuso quase, mas ela se mantinha firme, como de costume. Como se o olhar fosse o bastante para desvendar alguém por completo! Mais fácil ler mãos e ter alguma consistência do que tentar desvendar com o olhar e se perceber vencido.

E o martírio teve fim quando ela pintou os lábios de vermelho. E sorriu, como se tivesse saído de algum encanto e voltasse a ser a mesma de sempre. Ele sorriu de volta.

E o que viram de verdade?

O que viria de verdade?

Qual era a verdade?

Ah preguiça de quinta-feira sem consistência nem forma. Não tocavam palavras: mantinham-se adormecidas e preguiçosas como a própria quinta-feira dentro de cada um. Mas o vizinho tocava qualquer coisa bonita e a vida era boa.

12 de jun de 2013

Como se chama? ou Aquilo que não se sabe nomear

É só uma sensação. É mais uma sensação do que qualquer outra coisa. E talvez em outros tempos o temor viesse da constatação do seguinte fato:

- Sensação de quê?

[bem... a falta de constatações]

Não sei. Não sei definir. Não sei por que veio. Quando vai, se vai... Não sei se é boa ou má, só sei que está. E é.

A gente tem mania de querer pôr nome em tudo, como se ao dar o nome, tivéssemos algum poder sobre a coisa. Isso me lembra muito Guimarães Rosa, essa coisa da palavra como algo mágico, sabe?

Se não me engano, foi Wittgenstein quem disse que a nossa língua dá conta de tudo aquilo que precisamos dizer. Ora, então talvez eu não precise dizer nada, nem dar nome, já que a língua portuguesa não dá conta disso.

E, bem, eu mesma não dou conta de explicar, ainda que para os meus botões, o que é isso que se passa.

9 de jun de 2013

Timers e timing ou D'areia que te escapa pelos dedos

- TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM!

Juro que imaginei um daqueles timers de cozinha tocando duas vezes essa semana. E a pessoa olhando com a chateação de quem deixa o bolo passar do ponto.

- A gente faz outro bolo - eu poderia ter dito com carinho, mas...

pra que mentir?

Dizer que não há segundas chances é uma coisa meio forte, quase cruel: acho que a vida nos é generosa. Todavia, a impressão que carrego é que muitas vezes uma chance pode ser a primeira e a última ao mesmo tempo. Bom, pelo menos de acordo com algumas coisas que tenho visto. Claro que isso soa um pouco dramático, mas não é porque soa dramático que não seja verdadeiro.

Ah!

Não sei exatamente o que as pessoas querem da vida. É preciso estar atento às oportunidades, que nem sempre se apresentam como se espera. Também não sei o que os outros esperam. Talvez um milagre. Talvez algo ou alguém que se encaixe perfeitamente em categorias e conceitos pré-concebidos. 

Sei lá. As coisas e as pessoas têm um timing. É quase uma lei da natureza, sabe? Um momento certo para a  coisa certa. Porque se deixar para depois... O momento se perde, as pessoas se perdem umas das outras, das coisas, dos planos, dos sonhos. Não é maldade, juro. São só os momentos que passam - uma vez.

Às vezes, sou muito dura e digo que quem não dá a cara a tapa não merece ser feliz e bem... Pensando bem... Talvez eu seja mesmo, mas, pelo menos, o bolo queimado não é meu.