31 de dez de 2012

Feliiiiiiiiiiz Ano Novoooooo


Receita de ano novo 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

(Carlos Drummond de Andrade)

29 de dez de 2012

Moving on

A: - Já passa da hora de seguir em frente.

B: - E o que você vai fazer?

A: - Seguir em frente, oras.

B: - Hum. E precisa mesmo?

A: - Bom, acho que é o que manda a natureza: é a lei do progresso.

B: - E você vai progredir se seguir em frente e deixar o passado para trás? Tem certeza?

A: - Bom, certeza certeza não, né? Mas é uma tentativa válida.

B: - Acho que você está fugindo.

A: - De quê?

B: - ...

A: - Acho que você está fugindo.

B: - ...

A: - Não é que eu ache que vou ser melhor seguindo em frente: só preciso tentar algo novo.

B: - Por quê? O que você tem não está bom?

A: - Ah, você sabe.

B: - Sei. Sei?

A: - ...

B: - E se você esperasse?

A: - O quê?

B: - As coisas mudarem.

A: - E se não mudarem?

B: - ...

A: - ...

B: - Não merecem uma chance?

A: - Você quer que eu espere no mesmo lugar?

B: - Por que não tentar?

A: - Aí eu espero. E o que vem depois?

28 de dez de 2012

Felícia, espartilhos e ideologia.

Antes de experimentá-lo, ela se olhou desconfiada:

- Acho que isso vai contra muitas coisas que eu acredito...

Sim, era uma bobagem, mas as bobagens constantemente a levavam a coisas um pouco maiores - como se seguisse uma abelha até chegar a colmeia. Enfim. 

Experimentou o espartilho preto de renda e couro. A moça da loja ajudou-a a apertá-lo. Sempre tinha achado bonita aquela coisa de cintura fina. E espartilho era uma coisa sensual, muito sensual. A moça da loja continuava apertando. Lembrou-se da sua infância assistindo Looney Tunes: Felícia. Felícia que abraçava tanto seus bichinhos amados que os deixava sem ar.

A moça da loja não a abraçava, mas sim o espartilho. E não a amava. Deve haver um modo mais agradável de ficar sem ar, mais válido. Será que para ser amada, notada preciso disso?

Finalmente, se viu pronta junto ao espelho: estava sem ar, mas tão bonita! A cintura marcada como ela tinha imaginado. E, de fato, sensual, muito sensual. E, de fato, desconfortável, muito desconfortável. Deveras desconfortável.

Pois é. O espartilho se revelava uma questão ideológica. Do que ela estaria disposta a abrir mão pela dita beleza, pela dita sedução? A mulher que se submete a tudo pelas aparências e nega a natureza de seu corpo?

Balançou a cabeça, olhando-se no espelho:

- Deve haver um modo mais simples - ela murmurou para si, enquanto tirava o espartilho e colocava de volta seu vestidinho leve e solto.

O céu se riscava de gotas como o giz risca uma lousa. Ela saiu da loja e parou no ponto de ônibus. Seu Terminal logo chegou e ela embarcou. Estava tão concentrada em suas mais recentes divagações que acabou não notando o olhar do bonito moço, insistente e cobiçoso a acompanhá-la em seu caminhar.

25 de dez de 2012

Já dizia Simone: "Então é Natal..."

O Natal é um dia de celebração, uma data especial. Ele serve para nos lembrarmos de uma série de coisas sobre olhar para o próximo e fazer o bem aos demais. Entretanto, não precisamos esperar o ano todo pelo dia 25 a fim de sermos bons. Podemos ser bons em todos os outros 364 dias do ano e é exatamente isso o que eu vi em 2012: pessoas dando o seu melhor em tudo o que fizeram, cuidando umas das outras, sendo caridosas, colocando amor nos mínimos gestos. E tenham certeza que é isso o que faz o meu Natal valer a pena: as ações dessas pessoas fantásticas que entendem que o Natal é todo dia. Desejo a todos vocês um Natal cheio de muito amor, luz e realizações! E que possamos ser cada vez pessoas melhores!

24 de dez de 2012

Ligeirinhos: Filtros

A: - Você tem a mente aberta?

B: - Tenho sim.

A: - Então vou te contar...

Cinco minutos depois:

A: - Aonde você vai com tanta pressa?

23 de dez de 2012

Capitão Óbvio, Frank Sinatra e o mundo empírico

Existe um bom motivo para não comer enroladinho de presunto deitado. Deitado você - e não o enroladinho. É o mesmo motivo de não se beber groselha estando deitado - mesmo com canudinho. 

Existe também um motivo para não dormir com o cabelo molhado. Para não sair com o carro na reserva. Para não mascar Ping-Pong de tutti fruti quando se usa aparelho fixo. Para não deixar de beber bastante água durante o dia. Para não entrar em pânico toda vez que algo escapa ao seu controle. Para não mandar cartas que nem deveriam ter sido escritas.

Existe motivo para não dar satisfação a quem não te satisfaz. Para não dar mais uma chance a quem te decepcionou pela enésima vez. Para não emprestar seu livro preferido. Para não deixar tudo para a última hora. Para não cortar o açúcar porque você cismou que está gordo. Para não sair de moto sem capacete. Para não chorar por dor de cotovelo. Para não usar chantagem emocional para conseguir alguma coisa. Para não deixar que um não-cabeleireiro corte o seu cabelo.

Existe sempre um bom motivo para não se apegar ao passado. Para não confiar em quem tem a fala muito mansa. Para não levar a sério o que dizem Frank Sinatra e Chico Buarque - e, numa instância mais pop, Michael Bublé. Para não guardar mágoa. Para não ignorar o que o médico falou sobre a sua úlcera. Para não sair no sol se não for para se queimar. Para não sair no sol sem protetor solar. Para não sair pela vida desarmado. Para não ficar tão preocupado com o que dizem de você. Para não sair sem guarda-chuva quando a chuva é certeza. Para não encanar com a chuva quando o refresco é certeiro. Para não sair de vestido curtinho quando o vento é matreiro. 

Existe sempre um bom motivo para tudo isso. E, numa tarde de domingo bem quente, bato papo com o Capitão Óbvio num bar qualquer em Pinheiros. Ele está irritado e perplexo:

- Não entendo vocês: estou sempre por aí, entregando quase tudo de bandeja, mas vocês insistem em fazer diferente!

- Ah - suspiro - Nem sempre é fácil, simples assim. Há coisas pelas quais temos que passar. Acho que a experiência é necessária e, muitas vezes, mais válida do que seguir a sua cartilha.

- Então é uma questão de escolhas?

- Nem sempre. Nem sei.

- Então você leva Frank Sinatra a sério?

- Ainda sim. Às vezes. Ai ai.

- Olha, não entendo mesmo porque vocês escolhem me ignorar - ele dá uma pausa e suspira -, mas entendo porque você leva o Frank a sério...

21 de dez de 2012

Sinais: you're doing it wrong

Não vi sinais do fim do mundo: o que está errado está errado e não é de hoje não. Por isso, dormi tranquila sabendo que as coisas continuariam como sempre. Tranquila não é bem a palavra: a constância, a mesmice e o comodismo têm um preço. 

De repente os sinais de Deus, de qualquer outra entidade superior ou da vida estão bem na sua frente, mas será que você está realmente atento? A pedrinha de brilhante piscando aqui no chão e o sujeito buscando a estrela lá longe - inatingível. Assim como há pessoas que buscam amor, felicidade e realizações nos lugares errados, há quem também erre ao procurar os tais sinais. Digo "lugares errados" não por moral ou juízo de valor, apenas porque muita gente não sabe o que realmente precisa. 

(Se alguém achar isso normal, me chame de chata)

Sempre sei quando vai chover, sei ler os sinais do ar e dos pássaros, muito além do senso-comum das nuvens. Isso não quer dizer que eu sempre saia de guarda-chuva. Por isso, não basta saber ler os sinais, mas é preciso fazer algo a respeito. Do contrário, é como se eles não estivessem lá: de que serve se perceber que algo vai acontecer e não fazer nada?

Deve ser a minha mania de condenar a omissão...

Vai chegando o fim do ano e é impossível não ir fazendo uma retrospectiva de 2012, com todos os erros e acertos, com todos os sinais que eu li e os que não percebi. E os que deixei passar porque estava preocupada com qualquer coisa nada importante, algum cisco de pão na sua gravata, alguma formiguinha no açucareiro de aço inox riscado. 

20 de dez de 2012

Ligeirinhos: Justifique sua resposta no more.

A: - Me disseram que eu me justifico demais.

B: - Também sou assim...

A: - É complicado.

B: - É mesmo.

Pausa.

B: - Mas é que eu...

A: - Ei! Você 'tá fazendo de novo.

19 de dez de 2012

Da dança à sedução

Da primeira vez que comentei que queria aprender dança do ventre, um amigo me perguntou:

- E quem você quer seduzir?

Eu sorri e respondi "ninguém", porque é uma coisa que eu queria fazer por mim - e não pelos outros. No último fim de semana, depois de meses de aula, tive minha primeira apresentação. E foi simplesmente fantástico! 

A dança ventre é mais uma daquelas centenas de coisas que pode parecer ser para os outros, mas deve ser para quem dança. Quer dizer: você até pode dançar para seduzir alguém, mas fazer desse o único motivo me parece algo um tanto falho. É fazer a coisa certa pelo motivo errado.

Durante os ensaios, não pensava em impressionar fulano ou ciclano: pensava unicamente em mim. Era o meu momento. Momento de deixar o outro de fora, em silêncio. É o diálogo da mulher com o seu corpo (seja ele como for, pois acaba sempre sendo belo), com a sua feminilidade, consigo mesma. 

Por que o meu cabelo - curtíssimo agora, a la Ginnifer Goodwin -, o meu tom de esmalte, o meu jeito de falar precisam atender ou agradar alguém? Então, a verdade é que não precisam e toda vez que me deparo com alguma "reportagem" no melhor estilo "se enquadre", eu acho triste, porque quem vai se construindo com base em parâmetros de aceitação alheia complica a própria existência. Já falei disso várias vezes e insisto por a achar ser uma questão importante.

- Você deveria ser...

Dançamos porque nos faz bem, porque relaxamos, porque desinibe, porque soltamos o corpo e aprendemos a aceitá-lo, amá-lo - sem que o olhar do outro se faça necessário. Claro que se a sedução der as caras no meio desse caminho mal não vai fazer.

15 de dez de 2012

Ligeirinhos: Intragável

A: - Seu café.

B: - 'Brigado.

Gole.

Careta.

B: - Faltou açúcar.

A: - Não, é só ressentimento.

14 de dez de 2012

Gato mia

Porque decidiram brincar de gato mia e o gato miou, se não tudo, um pouco, alguma coisa, muita coisa. Muito miou. Só que o meu jogo é outro:

- Atirei o pau no ga-to to...

[mas o ga-to to não morreu-reu-reu] a história da minha vida.

Não era medo: era só o desconforto causado por estar no escuro, sem saber quem estava comigo - alguém contra mim? Hoje, nem o desconforto: um escuro honesto, sem farolete. Luz interna? Intuição. O sexto sentido apurado, mas sem ver gente morta, só as coisas vivas. E, ainda que estivesse tudo claro, eu fecharia meus olhos para seguir assim.

Entretanto, as flores eu deixo morrer:

- Você precisa cuidar das flores que ganhou.

- É.

- É assim que você vai cuidar dos seus filhos?

- Não, não vou precisar regá-los.

É tempo de cirandar por outras bandas, plantar em outros campos. E já colho alguns bons frutos, expressos em palavras e abraços. Afeto.

- Você plantou uma semente de amor em cada um de nós.

Tateio no escuro em busca do gatos danados, mas me escapam - obviamente. Então esbarro comigo mesma, essa cara que me dificulta a vida, os óculos, o cabelo ansioso por mudança. Bom, vir ela veio, a galope, fazendo malabarismo com objetos em chamas.

Ui! 

Radical?

Abri uma trégua: sai para o quintal, coloquei um pires de leite. Os gatos foram se aproximando. Vieram pelo leite ou para rir de mim? Nada. Me olham simpáticos, compreensivos. Meu cafuné logo virou um ronronado suave e terno:

- Está tudo bem - eles me dizem.

Aí eu olho para o céu, para eles, para os rumos que a minha vida está tomando, bonitos e diferentes desenhos ganhando forma a partir de um esboço. E repito:

- Está tudo bem.

Sorrio. Welcome brave new world.

Família

A: - Quero um desses!

B: - Espero que  você esteja se referindo ao chocalho.

12 de dez de 2012

Saia já daqui pra casa e outras coisas.

Nada como comprar a saia que você mesma mandou para o bazar beneficente há um ano atrás. Não é falta de desapego: é dar uma segunda chance a saia. De bônus, ganho o riso coletivo dos colegas e aqueles olhares:

- Como você é esquisita!

E o que o meu devolve:

- You haven't seen anything yet...

Hoje, enquanto eu voltava para casa, presenciei aquele pé de vento. Bagunçou uma árvore, levando suas flores brancas embora. Chegarão em outros lugares, sem dúvida. Partidas e chegadas. Venta lá fora e venta aqui dentro. Winds of change e dos fortes, enquanto assobio por dentro, feliz.

A saia é a mesma, a vida é outra - e eu também [multiplicado por três].



Ligeirinhos: Tudo errado

A: - O que deu errado?

B: - Chorava todas as noites e me pedia perdão por não corresponder às expectativas.

A: - Nossa! Tá na hora de você procurar um cara mais forte.

11 de dez de 2012

De estimação

A: - Acho que não dá mais...

B: - O quê?

A: - Isso.

B: - Isso?

A: - Olha como ele está!

B: - Ah! Mal assim?

A: - Olha!

B: - É, ele está meio... diferente.

A: - Diferente? É só olhar para ele: está tão gordo que mal consegue andar!

B: - E o que houve de errado?

A: - Acho que alimentei demais o seu ego.

10 de dez de 2012

Sessão da Tarde

Voltava para casa não lembro de onde. Comecinho da tarde, só uns cachorros junto ao ponto de ônibus, o motorista bebendo uma cerveja gelada junto ao volante. Antes assim do que tomá-la no café da manhã como costumava fazer, logo cedinho, só para me levar para o trabalho.

Um calor de dezembro que valia por todos os meus vinte e cinco dezembros. Vou me aproximando de casa e vejo longe dois homens sentados na ilha da agora pacata avenida. Todos dormem? Sesta? Menos os dois homens e eu. 

Vestem uniformes e se distraem com alguma coisa. Hora do almoço. Estão sentados de um de frente para o outro e olham para algo entre ambos. O que seria? Meu passo, sempre apressado, mas sem engasgos, curioso. O que seria? Não deve ser filhote,  nem sobremesa, mas o que quer que seja, estão concentradíssimos.

Vou me achegando, chegando olhando engolindo absorvendo...

Sentados sobre a boca de lobo, os dois trabalhadores e o tabuleiro jogam xadrez durante sua hora de almoço.

8 de dez de 2012

Ligeirinhos: Bolha

A: - Para onde você tá me levando?

B: - Surpresa. Pronto, chegamos.

A: - Onde?

B: - Para fora da sua zona de conforto.

7 de dez de 2012

Ligeirinhos: Quem?

A: - Não é você: sou eu.

B: - Sim, é você mesmo.

A: - Você acha mesmo?! Falei por desencargo de consciência...

6 de dez de 2012

Radical

A: - Vários caras me disseram que eu era como um porto seguro. E todos eles escolheram ir embora, cedo ou tarde.

B: - Os homens não gostam dessa calmaria, dessa segurança: precisam de emoção, não podem ter certeza que você está lá com eles, que você os apoia. Devem achar que você pode mudar de ideia a qualquer momento: é um estímulo. 

A: - Sério?

B: - Você tem que ser misteriosa e essas coisas chatas todas. Cansativo. Do contrário, para eles, o jogo da conquista perde a graça.

A: - É sério isso? Tem certeza mesmo? Acho que você está enganada...

B: - Bem, foi o que li por aí. 

A [suspiro]: - Bom, se for isso mesmo, talvez então seja hora de passar de "porto seguro" para "rafting nas corredeiras"

5 de dez de 2012

Ligeirinhos: Amor

A: - O que foi?

B: - Acho que estou apaixonado.

A: - Então se dê o benefício da dúvida.

4 de dez de 2012

Fora da zona de conforto - de novo.


Engraçado como a gente muda. Até alguns anos atrás, eu daria qualquer coisa no mundo para que as coisas não mudassem. Talvez isso acontecesse porque eu estava na minha zona de conforto. Só que desde que me formei na faculdade, não sei mais o que é isso. E, estranhamente, só notei tal fato há alguns meses. E, estranhamente, isso não me encana - só me encanta.

E me perguntei por esses dias: se estou tão fora, por que não ir um pouco além e sair um pouco mais da minha zona de conforto?

Quando dei por mim, tinha escolhido fazer uma coisa totalmente nova em 2013, algo que sempre tive vontade, mas nunca a oportunidade. E, uma vez que me foi dada, a agarrei com toda a paixão e dedicação que tenho. Será um grande desafio, mas, estranhamente, não tenho medo. É como se eu finalmente tivesse entendido que não há nada a perder. E nesses momentos de conquista íntima, percebo como andei me preocupando com coisas tão pequenas...

Mudar é bom - e fim de papo. Não digo que a mudança é sempre feliz, mas ela te força a ir além, a se adaptar, a buscar novos caminhos. A minha vida não é nadinha do que eu esperava há alguns anos atrás e, hoje, não consigo imaginá-la diferente do que foi, do que tem sido. Porque eu tenho prazer em tudo o que faço e tenho visto do que sou capaz. Isso dá uma sensação de algodão-doce no parque.

Talvez eu nem queira voltar para a tal da zona de conforto: é muito mais emocionante viver fora da bolha, sabe? Arriscar, falhar e acertar - sou muito mais isso do que comer, rezar e amar.

Publicado originalmente em 30/11/12 em Meninas Improváveis.

3 de dez de 2012

Ligeirinhos: Mal-entendido [1]

A: - Isso deve ser por causa da minha postura.

B: - Mas é claro! Você não sabe se posicionar na vida!

A: - Eu estava falando do modo como me sento na cadeira.

1 de dez de 2012

Coisas que você não diz só de olhar para ela

Para meu amigo Corintiano, que me acusa de radicalismo ao falar sobre forma e conteúdo

Ela era pequena e frágil e tinha uma cara sonsa de donzela indefesa. Aquelas coisinhas delicadas e insignificantes que vivem precisando ser salvas. O que a gente não sabia é que ela era faixa preta em karatê e já tinha dado surra em muito marmanjo. E, para sua sorte [ou azar], o seu discurso - duro por trás do adoçante - botava medo em muita gente. Quem olhava, nunca imaginaria.

A sua beleza era aquela coisinha da Namorada de João Gilberto, poucos sabiam da enorme tatuagem de dragão nas costas, escondida sempre por baixo das roupas bem comportadas, embora levemente transparentes.

Quem a via, pensava naquelas mocinhas de novela da seis: nem desconfiavam do seu divórcio turbulento, dos inúmeros amantes, dos casos tórridos. Nada. Nem do filho natimorto. Nem do romantismo perdido. Nem da sua estadia na África do Sul por três anos.

Tinha uma moto na garagem e andava por aí sem carta, mas escrevia cartas para rádios. Andava a 120 km/hora ao som de Bush, porque Born to be wild era para amadores. E tirava racha aos fins de semana: um prazer transbordando por velocidade. Amava a velocidade, o vento, as vias, as veias, a vida.

Já tinha experimentado muita coisa e vivido muita coisa nessa vida. A cicatriz perto da orelha esquerda. Entretanto, era discreta. E a sua discrição se estendia para os sérios problemas domésticos enfrentados desde a infância. Sempre a cabeça erguida, solícita, determinada, suave. E forte.

Ela passava seus dias sendo subestimada pelo que parecia ser, já que o de fora não combinava com o de dentro. Só que o tempo foi passando e ela passou a ter prazer em surpreender os outros:

- Como você pôde?!

Sorria - e piscava o olho para a câmera imaginária. O filme de sua vida. E não só encontrou prazer em brincar com as pessoas, mas passou a tirar proveito da situação. Se dissessem alguma coisa, ela dava ombros e olhava com aquela sua meiguice. O casaquinho cor-de-rosa.

30 de nov de 2012

Mornidão ou Meios termos

Não sei se ele foi embora porque eu quis ou porque ele quis. Não sei quem quis o quê. Não entendo o que ele quis - ou quer? Nem quero. Não sei se alguém fugiu. Eu ou você? Não sei se foi por deixar a porta aberta, mas 'cê sabe que eu não sou de trancá-la. Não gosto das coisas assim. Não, você não sabe.

- Você não sabe de nada.

Digo isso com uma arrogância ensaiada, trago para você o meu pior porque o melhor não te serve, não te convence, não combina. Deixa ser então.

Também não gosto da mornidão. Morno só o leite quente pra me fazer dormir quando o sono não vem. O resto não. Pés descalços ou cachecol - sem meios termos. Nem juntando todos os meios termos eu poderia conseguir um inteiro - fosse do que fosse.

Você que eu soube nomear depois de algum tempo... Ah. Deve ter fugido sem olhar para trás. Bom, eu também não olhei para trás - minha marcha implacável rumo ao futuro - e não sei se hesitou, se saiu cabisbaixo, se saiu correndo, feliz.

Tenho pena das coisas eternamente em estufa. Ambiente controlado. As flores que nunca brotam. Os filhotes que nascem mortos. Tudo aquilo que não vinga, aquilo que perde o momento. Basta um piscar de olhos, uma mudança na direção do vento e o nosso olhar fica um tanto sem graça, juntando com delicadeza e embaraço os pedacinhos que papel rasgado da história que não aconteceu.

Paga-se um preço pela constância, mas preço maior paga quem aceita viver pela metade.




26 de nov de 2012

Ping-pong ou Coletânea

Ele: - Não sou homem pra você. 'Cê sabe.

Ela: - Não, não é mesmo. E não é porque não quer.

Ele: - Não sei porque você não quer conversar comigo.

Ela: - O problema é esse: você não saber.

Ele: - Você não vai me explicar?

Ela: - Posso desenhar.

Ele: - Você está tão agressiva.

Ela: - Se eu sou afetuosa, você se afasta.

Ele: - Veja bem: é que eu sou homem...

Ela: - Imaginava. Eu sou mulher e nem por isso meus hormônios falam por mim.

Ele: - Você é muito dramática.

Ela: - Não, eu sou um ser humano. Tenho sentimentos. É diferente.

Ele: - Ah mas eu também tenho sentimentos!

Ela: - Não duvido: a vida ensina a acreditar nas coisas que a gente não vê.

Ele: - Dramática.

Ela: - Vitrola.

Ele: - Eu não entendo o que você quer!

Ela: - Mas eu já falei e desenhei. O problema é você.

Ele: - Então agora eu sou o problema?

Ela: - Sim e, para a minha sorte, você é problema seu.

Ele: - Não sou problema de ninguém. Você está falando besteira.

Ela: - Você é que não sabe o que quer. E não estou nem falando sobre nós...

Ele: - Deve ser porque, bem, não há nós.

Ela: - Bom, se isso é verdade, então é melhor você devolver as minhas chaves. E soltar a minha mão.

Ouvindo Mi vida eres tu (Vanguard)

25 de nov de 2012

Os limites da bossa nova ou Forma X Conteúdo ou Versão subversiva

No primeiro ano de faculdade, a professora de Introdução aos Estudos Literários quis me matar: separei a forma do conteúdo ao analisar um poema de Carlos Drummond de Andrade. E eu quis morrer, é claro: não pela heresia que cometera em minha análise, mas pela crítica feita pela professora, crítica deveras merecida.

Demorei para absorver essa história de forma e conteúdo. Entendi logo, mas demorou para fazer sentido para mim. Afinal, entender não é a mesma coisa que realmente absorver, internalizar e não sei mais o quê. Bom, o fato é que entendi já há algum tempo e hoje me deparei com uma daquelas pérolas.

O pessoal deve andar meio sem criatividade, pois o número de versões de músicas antigas parece maior do que nunca. Claro que não tenho dados nem números que comprovem isso: conto apenas com meus dois ouvidos e uma certa chatice, confesso.

Chatice porque as versões são ruins e implico com o que acho ruim, já que nem sempre dá para desligar o rádio. Nem todas são ruins, naturalmente: são ruins quando rompem com a inseparável relação perfeita entre forma e conteúdo - o casamento perfeito. Bom, deveria ser inseparável e se foram separados, as chances de dar certo, da música funcionar não são lá muito grandes.

Ontem estava cá eu faxinando, o rádio ligado e ouço isto aqui:


A princípio, pensei que fosse uma daquelas músicas das novelas do Manuel Carlos, mas logo reconheci que era uma versão da clássica:


Gosto muito de bossa nova, mas não combina, não rola, não tem química com a original, com a letra, com a ideia do Village People. Casamento fracassado. Não dá para colocar bossa nova em tudo, como muitos músicos devem imaginar e ficam pegando clássicos e transformando-os em músicas que não conseguem ser algo novo nem nada. Não têm identidade própria nem chegam a viver nas sombras da original. 

São versões subversivas, na acepção mais enfadonha da palavra.

24 de nov de 2012

"Você já pensou em vender?"

"Cidade" (1999), Frau Forster
Quando eu era pequena, costumava desenhar muito bem. Era com frequência que as pessoas me diziam:

- Você já pensou em vender? Trabalhar com isso daria muito dinheiro!

Não sei se esse tipo de discurso vem no nosso mundo utilitarista e no qual tudo deve/pode ser convertido em valor monetário, ou se tem a ver com aquela história de trabalhar com prazer, fazer uma coisa que se gosta.

Bom, eu adorava desenhar (como ainda adoro) e pensar em ganhar dinheiro com isso parecia fazer sentido. Então comecei a fazer desenhos de observação, pois me sugeriram que seria uma boa maneira de praticar. Só que isso não me dava prazer, embora os desenhos ficassem bons. Ficou tudo por isso mesmo e continuei a desenhar o que eu queria, o que gostava.

Isso faz mais de dez anos e voltei a pensar nisso há uns dois, quando comentei com uma amiga minha que eu queria muito trabalhar com literatura, por ser algo que adoro, e ela disse:

- Ah eu não gostaria de trabalhar com isso: para mim, isso é só prazer.

Sempre me disseram que eu deveria fazer algo que gostasse: bom, eu adoro o que faço. Entretanto, não é porque faço uma coisa bem ou porque gosto de fazê-la que tenho que necessariamente ganhar dinheiro com ela. E, mesmo pensando assim, hoje me peguei quase dizendo:

- Você já pensou em vender? 

Trabalho e dinheiro são apenas partes de nossas vidas: partes importantes, mas, nem de longe, podem abarcar nossas breves existências. Há outras coisas na vida tão ou ainda mais importantes. E entendo a minha amiga que não queria misturar uma coisa que para ela representa exclusivamente prazer com outra que seria o ganha-pão.

E aí, de repente, uma coisa que antes te dava prazer pode acabar virando obrigação, responsabilidade. Nenhum problema com obrigações e responsabilidade: é só que nem toda hora é hora. É uma linha tênue. Por isso, continuo trabalhando com o que gosto, mas fazendo outras coisas que gosto tanto quanto ou ainda mais. Assim tem funcionado.

23 de nov de 2012

Mais do mesmo ou Fake plastic trees

Juro que não foi por despeito. Nem raiva. Nem nada. É o de sempre: a simples constatação de um fato. Um não, vários. Uma objetividade que me assombra. Poderia até fazer uma listinha, mas o caso não vale uma listinha. Não vale o vestido vermelho. Não vale a noite em claro. Vale, no máximo, um singelo post aqui, mas como escrevo sobre praticamente tudo, o post não é grande coisa. 

Talvez tenha sido por preguiça, preguiça ao perceber que certas coisas serão sempre as mesmas. Não importa que você mude ou que o momento seja outro: alguns acontecimentos voltam espiralares e você, ao se deparar com eles, diz confiante:

- Mas vai ser diferente.

Só que não é. Os fatos acontecem do mesmo modo, o fim é tão sem sal quanto tinha sido antes. E aí? Para a sua sorte, você mudou e esperava pouco, mas tão pouco que não incomoda muito, sabe? É mais aquela sensação de:

- Não dá para arriscar outras teclas e tentar outra música?

O disco está riscado: a vitrola empacou. Melhor trocar o disco - ou a vitrola. Nem diria sensação de perda de tempo: a gente sempre aproveita alguma coisa. Talvez seja cansaço, só isso. E se me atrevo a especular é porque não me deram mais informação para racionalizar. E a pergunta: 

- Mas eu quero?!

A saída é o meu "tanto faz". Talvez ele guarde uma certa tristeza, não sei, afinal, baixar as expectativas tanto assim pode até ser insalubre. E é aí que percebo como as pessoas podem ser pequenas e se preocuparem com coisas tão pequenas que...

Para mim, o "tanto faz" é sempre um alívio: uma xícara de chá no fim do dia, uma massagem nas costas, os pés descalços depois de um dia de sapatos apertados. O "tanto faz" é o suspiro de quando você fez o que dava e mesmo assim foi sem sal, sem graça, sem nada. Vai fazer o quê?

As pessoas costumam dizer que insistir no erro é burrice:

- E se você só percebeu que era um erro depois?

A vida nos oferece várias chances e corro atrás de todas que puder. Naturalmente, nem sempre dá certo. E nem sempre os acontecimentos dependem exclusivamente de nós. E aí? 

O que salva é que embora os acontecimentos possam ser os mesmos, o modo como você os encara pode mudar radicalmente e é isso o que acaba definindo o rumo que você vai dando a sua vida. Isso não impede que eu acabe ouvindo sempre mais do mesmo. É hora de trocar o disco. Faço aquela minha cara de:

- Pois é.

Como de quem não tem mais o que fazer, como quem percebe o óbvio ululante:

- Você não colhe maçãs vermelhas em pinheiros natalinos de plástico.


21 de nov de 2012

20 de nov de 2012

Cézanne

Meu romantismo ofendia, ofertado discretamente com as maçãs sobre a mesa. Natureza morta. A árvore do conhecimento. Maçã envenenada. Conhecimento envenena? É preciso saber saber das coisas. Nem me venha com esse papo de aprender a aprender: o negócio é saber saber das coisas. Vai provar do conhecimento [partitivo, um pouquinho do conhecimento do mundo] para depois cair em sono profundo. Salvo por um beijo? Nada, só no balde de água fria. É assim que mostro que me importo: chamando para a realidade, ainda que as maçãs sobre a mesa sejam suas, só suas.

19 de nov de 2012

Quado a banca ganha

Ele: - Estou cansado desses jogos...

Ela: - Ah... Não temos muita escolha: jogo como posso, jogo o mínimo. Você sabe que eu gosto das coisas claras, mas não dá para ser do meu jeito. Sempre é esperado algo de nós.

Ele: - É tão cansativo: não tenho paciência! Ter que tentar adivinhar, dar o espaço certo, o tempo certo. Buscar os sinais certos. E tem o jogo da conquista, a mulher tem que ser conquistada e não sei mais o quê. O machismo pesa para os homens também. Não ficaria tudo mais simples se pudéssemos ser diretos sobre o que queremos?

Ela: - Sim, mas não dá certo: eu tentei. Você comunica seu interesse ou afeto e o outro sai correndo, como se estivesse fugindo de uma sentença de morte. Ser objetivo te compromete. Ter certeza de certas coisas é comprometedor.

Ele: - E as mulheres ficam se fazendo de difíceis. Não todas, é claro, e acho que faz parte do jogo.

Ela: - E se você, como mulher, coloca na mesa o seu interesse, a sua atenção, o seu cuidado logo de cara, assusta o outro, sei lá o porquê. É o jogo.

Ele: - Estamos bem arranjados, hein?

18 de nov de 2012

[Im]pe[n]sadamente

Tanto faz porque foi verdade. O pedido feito mais de uma vez. O laço desfeito bruscamente mais de uma vez. Tanta palavra, tanta promessa, tanta pose. Jóias para quê? Não percebeu que não uso, que minhas orelhas ostentam bijuterias baratas das feirinhas de Embu das Artes? De onde vem esse desejo alheio de querer ficar comigo? Não sei, dou ombros simpática. Sorrio simpática - quando não sei o que dizer, quando não há o que dizer. Já me disseram tanta coisa bonita que eu nem sei. Já me escreveram tanta coisa bonita que eu guardei. E no fim das contas... Valeu? Vale pela lembrança. Quando não se vive de lembranças, resta a experiência. Grande coisa. Como faz? Não faz nada,  porque na hora do vamos ver parece sempre ser a mesma coisa.

Para minha sorte, parece. Além do que, o "sempre" eu evito. Evitar qualquer coisa permanente e absoluta é a Lei.

17 de nov de 2012

Sobre as coisas que a gente ama, mas esquece.

"Menina", 2008 de Frau Forster (batom sobre papel)
Saio da aula com as mãos sujas de tinta e paro numa lojinha de bugigangas. A atendente me oferece ajuda e sorri:

- Nossa! Você pinta quadros?

Meu sorriso sem graça diante do laranja e do vermelho das unhas, dedos, braços. Pois é. Como é que eu fui esquecer como adoro essa coisa das mãos sujas de tinta? Tempos de aulas de pintura. A tinta a óleo não secava nunca: coisa para os indecisos e perfeccionistas - nunca satisfeitos com suas obras. Tempos de desenhos feitos com esmalte, batom, maquiagem velha. Giz pastel - aquela caixa bárbara de 36 cores. Exposição na faculdade de aquarelas e outros desenhos despretensiosos. Onde tudo ficou?

Como é que eu fui deixar uma coisa tão prazerosa assim de lado? Como é que eu fui me esquecer? 

Sem sentimento de culpa, por favor. O que me importa agora é a nova caixa de giz pastel que vou comprar, os pincéis e as bisnaguinhas de tinta Gato Preto.

16 de nov de 2012

Taking people for granted

- Vovó, por que você tem uma boca e dois ouvidos? - perguntei curiosa.

- Para ouvir mais e falar menos, minha netinha. E você também tem uma boca e dois ouvidos - ela sorriu.

E então me dei conta do óbvio fato, mas isso já fazia tempo: faz tempo que sei disso. Entretanto, é sempre bom lembrar e me lembrei por esses dias enquanto ouvia algumas declarações tão equivocadas...

Eu poderia ter comentado qualquer coisa, tentado explicar, pontuar, mas quis ver até onde aquilo ia. Ouvi atentamente, com aquele olhar obediente de quem saboreia uma crítica construtiva.  Podia ter dito alguma coisa. Mas não. Preferi deixar o discurso alheio fluir. E sorrir a cada engano alheio. 

Tenho essa cara simpática a maior parte do tempo - e uma cara de metida na outra parte. Tudo errado. Não sou nem uma nem outra. Todavia, não importa nadinha o que nós somos: importa o que as pessoas acham que somos, porque é isso o que elas conseguem ver. Cada um vê aquilo o que quer, cria fantasias, mitos, histórias sem pé nem cabeça. Vão pelo superficial, pelo que parece ser. E o que somos de fato fica para outra vida - quando seremos outra coisa.

Tenho uma listinha de descrenças e a previsibilidade do ser humano é um dos itens: não acredito nela. Gostar de padrões não quer dizer segui-los cegamente, muito menos dizer que Fulano ou Beltrano é quadradinho assim. Precisaria de muitos anos para dizer algo do gênero e, ainda assim, não teria o suficiente do outro para rotulá-lo disso ou daquilo.

Decorei a minha nova label com a pitada de bom humor que vem me acompanhando nos últimos meses e pendurei-a no painel do escritório. Vai ficar lá: faço questão de sair de casa sem ela.

E vou seguindo, como quem sabe um grande segredo - mas não há segredo algum: apenas uma pessoa sendo bastante honesta com a vida e sobre a vida. Se os outros não percebem isso, o que posso fazer? Muito pouco, quase nada: posso mobilizar céus e terras e só verão aquilo o que quiserem.

Ouvindo:


15 de nov de 2012

Tinha um cachorro no meu caminho...

Eu poderia dizer que conheço esse olhar. O olhar do cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda. No meu caminho de volta para casa, paro e ele ganha um afago. Nem sempre a mão que afaga é a que apedreja: acho que Augusto dos Anjos deve ter sido traído ou algo assim, ou talvez pensasse em como ficamos vulneráveis diante de certas circunstâncias.

Não preciso coser as memórias, nem buscar qualquer coerência interna, externa, extraterrestre. Os fatos são como são e ponto final - o que não quer dizer que a gente não possa andar fantasiado, mascarado por aí. Colombina ou o que mais se quiser. O que também não quer dizer que eu não possa andar sem máscara por aí, sem armadura, sem guarda-chuva. Bom, sem guarda-chuva eu já ando, no âmago das minhas pequenas ousadias diárias.

O cachorro branco com a mancha preta sobre um olho e a orelha esquerda me olha satisfeito. E meu olhar é o mesmo: satisfação. Não preciso de máscara, armadura, nem nada: um afago e está tudo bem. Acho que é por isso que muita gente prefere animais à pessoas: elas são muito mais desafiadoras. E, se não partilho de tal preferência, não consigo mais julgá-las por isso.



14 de nov de 2012

As aventuras da Ovelha Desgarrada [2]

Perdeu o olhar obediente, os bons modos, o dom de se manter em silêncio. Dom? Ah como é conveniente ficar em silêncio: conveniente para si mesmo e para os demais. É conveniente ser conivente. Sem conflitos - externos. Por dentro era ebulição sem transbordamento. Queria ir além da bordas, mas morria sempre na praia de si mesma. Mas isso era antes.

Faz castelo de cartas para destruí-los. Tem fascínio pela criação, mas mais ainda pela destruição. A vida é espiral infinita, nada do oito deitado - infinito clichê.

Tatuou o braço esquerdo:

- Ovelhas de família não fazem essas coisas!

O ronco de sua moto responde por ela. Assim como a fumaça preta no dia claro. Será que ninguém mais vê o que ela vê?




13 de nov de 2012

E era uma vez o idealismo furado dos amores e dos amantes

Se é ideal, é para ficar no mundo das ideias e não para ser colocado como uma meta a ser atingida. Pelo menos quando se fala dos amantes de Cony e Braga.

Li a crônica de Carlos Heitor Cony "Receita da amante ideal" sem a bronca que poderia ter se originado por conta do título: "receita" pressupõe uma fórmula e eu não acredito em fórmulas quando o assunto é relacionamento. Li sem bronca inicial, mas é claro que me deparei com o "perfil da amante ideal", como sugeria o título - o que trouxe careta posterior.

Um amigo me diria [como já me disse]:

- Você é muito categórica.

E dessa vez eu não torceria o nariz. Embora haja várias coisas que me atraiam, não consigo pensar no que seria um "homem ideal". Traçar um perfil quando se trata de pessoas é tolice, achando que é tudo uma questão de encaixe do tipo Lego. As arestas fazem parte. E que graça teria se eu tivesse exatamente o que eu queria. Um tédio. E tem outra: nem sempre o que eu quero é o que eu preciso.

Não é tudo preto no branco, nem se resume a insípidos 50 tons de cinza. Quantas camadas de sentido você tem e nunca ninguém se deu conta? E você mesmo(a) já se deu conta da sua complexidade?

Passamos tanto tempo tentando entender, pôr no papel, racionalizar e não-sei-mais-o-que que perdemos o momento. Simples assim. E por que ficar criando alguém que não existe em vez de abrir os olhos para o que existe ao redor - e até se surpreender? 

Li "Os amantes" de Rubem Braga e achei o texto bonito, mas senti que tinha alguma coisa meio estranha. A ficha caiu essa semana, enquanto eu conversava com um amigo. Por que eu trocaria o mundo inteiro por uma pessoa? Todos os lugares, cheiros, sabores, amigos, experiências, viagens... Tudo! Por uma vida sufocante e simbiótica [?] no metafórico apartamento sem luz. Oi?

Não importa que é literatura [de mentirinha?], pois reflete uma visão de mundo de qualquer modo. Uma visão da vida da qual eu discordo, da qual não consigo partilhar, pois creio que uma das coisas mais legais de se estar com alguém é justamente compartilhar o mundo - e não se isolar dele e criar um outro à parte. 

Vou muito mais pela Lygia e tenho a certeza feliz e morna de não ser o que alguém sempre sonhou. Não sou nem quero ser e, do mesmo modo, eu não poderia dizer isso a ninguém - o que me faz lembrar de uns versos acertadíssimos do Herbert Vianna:

Eu não te completo

Você não me basta
Mas é lindo o gesto de se oferecer
O que eu quero nem sempre eu preciso
Mas dê um sorriso quando me entender


Eu sorrio. Oferecemos o que podemos, o nosso melhor. E assim eu e você caminhamos junto a Humanidade.

Ouvindo Pessoa (Marina Lima)

12 de nov de 2012

A verdade por trás de "a fila anda"

- A fila anda.


Há quem ache insensível. Já eu acho bem acertado: a vida continua. Vai doer, você vai sofrer. Take your time. Fique de luto pelo tempo que precisar. Chore até se desidratar (e beba Gattorade). Ouça todos os CDs com músicas dor de cotovelo. Entenda que agora o que acabou faz parte do seu passado, ou seja, da sua história. E parta para outra.

Enquanto alguns saem pegando geral, tomo para mim a política do desapego: não deu certo, tudo bem. O que fazer? Há tanto que está além do nosso controle que prefiro sair por aí tendo bem claro na minha cabeça o que me cabe e o que está ao meu alcance. O resto não cabe a mim.

Não há dor de cotovelo ou o desamor vá durar para sempre. Bom, isso depende de nós. Acredito que enquanto estivermos abertos para a vida, a vida acontece. O problema é se trancar no quarto e querer conhecer alguém legal.

10 de nov de 2012

20 e poucos anos: Facebook


Lô: - Acho tão estranho esse negócio de status de relacionamento do Facebook... Você muda o seu status lá quando você tá namorando ou solteiro?

Raul: - Não, acho exposição demais. E você?

Lô: - Não tenho Facebook...

Raul: - Ah, é verdade. Mas o que você acha estranho? A exposição?

Lô: - Não, não é isso. Conheço muitos caras que não colocam nada no status de relacionamento e você fica sem saber como é que é, enquanto suas namoradas colocam "em relacionamento sério com" e o nome do fulano. Não é estranho?

Raul: - Bom, parece que eles não gostam de se expor...

Lô: - ... Mas deixam que elas os exponham? Parece que estão namorando com esses caras sem que eles saibam. Ou eles não fazem questão de que os outros saibam?

Raul: - Não sei, mas acho que as coisas antes eram mais simples.

Lô: - Meu bem, essas coisas de relacionamentos nunca foram simples...

9 de nov de 2012

Um par



Dois pra lá, dois pra cá. Você me tira pra dançar, mas não sabe conduzir. 

- Não sei dançar - diz pegando a minha mão.

Não sabe mesmo: sorrio, explico e conduzo. Desajeitadamente. Um passo para frente, outro pra trás. Coisa simples, coisa fácil. Só que agora não mais avança: apenas recua. A cada passo que dou para frente, você recua um pra trás. Cada vez mais e ainda mais. 

Logo está sentado com os demais, numa das mesinhas do bar. E me vejo de pé, dançando sozinha.

8 de nov de 2012

Smoke


- Você não sabe nada sobre mim - ele disse com uma baforada de cigarro.

A fumaça subiu espessa e ela ficou vendo as flores que iam se formando no ar. Flores de fumaça que logo se dissipariam sobre ambos. Assim como as nuvens da chuva chegando.

Todavia, havia coisas que permaneciam densas e sombrias.

[sombra nem sempre é coisa boa]

Ele falara aquilo com um orgulho duro e parecia se deliciar com o som da própria voz - ou com o efeito que sua declaração poderia causar. Ela não entendia: depois de dez anos, ostentar aquilo a troco de... Assim, do nada? E qual seria a alegria dele em não ter se feito conhecido?

- É, não sei mesmo - disse ela, tomando um gole de refresco.

7 de nov de 2012

Me vê uma trena ou algo que o valha, sim?


Parecia fundo: subiu no trampolim e saltou. Acabou solada contra o fundo da piscina. Fundo raso, tudo raso. Superficial.

Parecia raso: desceu as escadinhas e afundou num SLOPT. Acabou o corpo boiando na superfície a qual ela achou que tudo se resumisse. Profundo.

Não saber nada[r] nunca é uma opção: a piscina está lá e você simplesmente entra. Não importa se as coisas não são como parecem: você só vai saber quando entrar. Se entrar. Entretanto, é uma questão de escolha mesmo?

Há quem escolha esturricar ao sol... 

5 de nov de 2012

Tempo de Nudez ou Secretamente no more


"The naked time", possivelmente, é um dos meus episódios preferidos da série clássica de Star Trek.

Porque todo mundo tem máscaras, papéis sociais e responsabilidades, mas todo mundo também tem sonhos e desejos secretos que nem sempre podem vir à tona.


E, se por acaso, eles viessem? Se aquele seu lado B mais secreto viesse à tona e você não conseguisse mais manter qualquer máscara? E se você se rendesse totalmente a esse seu lado?

O mundo se tornaria um caos, sem dúvida, mas seria muito interessante observar como as pessoas agem quando estão nuas, despidas de qualquer véu, de qualquer fachada ou verniz. Será que isso nos separaria ainda mais das pessoas ou nos uniria a elas?

Talvez um acontecimento assim fosse a nossa perdição - ou a nossa salvação.

4 de nov de 2012

Agulha no palheiro ou Pelo em ovo?


Não sei o que você está procurando, mas você também não sabe. Sendo a vida sua e não minha, creio que você esteja em pior situação do que eu:

- Você se perdeu.

Não há pedacinhos de pão nem pedrinhas para tomar o rumo de novo. Então, você senta a beira da estrada e espera. Espera o quê? A chave que abre o céu? Você não só se perdeu, mas parece ter perdido tudo. 

Procura com o olhar atento-afoito, a expressão desfeita em. E a pergunta que não quer calar é:

- O que você está procurando: agulha no palheiro ou pelo em ovo?

A agulha pode levar mais tempo para ser encontrada - ou talvez você ainda nem a encontre. Todavia, de algum modo você sabe que ela está lá. Sabe mesmo? Ora, não é porque você não vê que ela não está lá. É como o ar: experimenta ficar sem para ver se não sente falta.

Já o pelo em ovo... É como plantar evidências numa cena de crime, na tentativa de se mudar os fatos. Por quê? O que se vê não agrada, satisfaz, contenta? Ou, de repente, a vida é grande demais e você precisa se ater não só a coisas pequeninas, mas a coisas pequeninas que simplesmente não existem. É pela sensação de controle ou pelo medo de olhar pela janela e ver que o mundo lá fora é bem maior do que...?

3 de nov de 2012

Sobre aquilo que não se sabe nomear


- Qual é o seu nome?

Eu deveria ter perguntado assim que ele chegou - e se instalou. Perguntei depois e ele não respondeu, porque simplesmente era uma coisa diferente, sem precedentes. E eu nem um pouco a fim de brincar de fill in the blanks. 

Não era lá grande coisa, mas, pensando bem, tem coisas que são difíceis de colocarmos num gráfico ou de atribuirmos um valor ou algo parecido. 

Então esse sentimento chega e se instala e eu sem saber seu nome. Não sei porque não há, então vou brincar de Criador e batizá-lo:

- Teu nome será...

E ele sorri gostosamente e se enrola como um gato, satisfeito sobre sua almofada predileta. Faço-lhe um cafuné cheio de afeto enquanto se espreguiça e assiste tevê. Ele também não sabe o que está fazendo aqui comigo, não sabe porque veio e por quanto tempo fica.

E nada disso importa, pois fique o tempo que precisar, quiser, sonhar... Já tem nome e só eu sei. E sei o que preciso saber: enquanto estiver por aqui, tem abrigo garantido. 

2 de nov de 2012

Memória, essa marota zombeteira.

Você se lembra de coisas que nem faço-fazia ideia. De algumas lembro vagamente - foto em sépia com cheiro de guardado. De outras você fala e não me vem um clique:

- Bom, deve ser verdade...

E eu me gabando de ter memória de elefante... Há [muitas] coisas que lembro e não comento. Talvez seja meu jeito de atender ao pedido de deixar algumas coisas no ar. Algumas ficam, que fiquem! Contudo, gosto da comunicação clara, precisa, certeira. Caso não seja necessária, guardo-a na minha já pesada bolsa .

E me pego pensando em memória seletiva: o que nos leva a lembrar de umas coisas e apagar outras? Não faço ideia, porque primeiro achei que era a sua relevância e importância, mas lembramos de tantas coisas que nada têm de relevantes ou importantes. Então...? Teriam sido importantes em algum lugar do tempo? Não. Então...?

Será que é pelo mesmo motivo que guardamos coisas que não usamos? E por que fazemos isso? Um dia podemos precisar delas. Não, não preciso mais delas, do mesmo modo que não precisamos de coisas que lembramos. Preciso lembrar de desligar o fogão, de quem não merece minha confiança, de pagar as contas, das aulas de dança. E só. O resto é perfumaria.

E sei que se juntássemos a sua memória de nossas conversas com a minha, ainda assim, não teríamos aquelas conversas: éramos outros e, como você mesmo disse, acabamos floreando muitas coisas simples em nossas lembranças- o que não significa que não tenham sido realmente encantadoras.



31 de out de 2012

É preciso coragem para se estar sozinho

É um tal de ostentar a aliança grossa e apertada. É um tal de exibir (todas as mudanças d)o status de relacionamento no Facebook - e depois espernear quando cuidam da sua vida. É um tal de achar bonito ter dono ou dona e andar por aí com coleiras invisíveis. É achar que os relacionamentos de  "O morro dos ventos uivantes" são saudáveis e ideais - que fiquem no mundo das ideias mesmo!

Em tais conjunturas, é preciso coragem para se estar e se declarar sozinho.

"A solidão é subestimada", diz Tom em 500 days of Summer e, embora ele não acredite nisso, eu acredito.

A cobrança social para estarmos acompanhados rola solta. Vivemos numa sociedade onde é feio estar sozinho: solteirice é sinal de fraqueza, falha, fracasso:

- Pelo jeito, você não tem nada a oferecer...

Por conta disso, algumas pessoas acabam se submetendo a relacionamentos vazios, nocivos ou, simplesmente, bobos. Ou ainda ficam anos com pessoas de quem [já] não gostam. Passo o tempo por passar.

Tão ruim quanto estar mal acompanhado é não saber ficar sozinho. E conheço várias pessoas que não conseguem ficar consigo mesmas. É medo de quê? De morrer sozinho? De se deparar e ter que lidar com quem se é de verdade? De não ter que "completar" ninguém? De não saber o que fazer ao perceber que já nascemos inteiros? Ou do que os outros vão pensar?

Às vezes é pura carência. Bom, acho que todo mundo tem seus momentos assim, mas vale se envolver pra valer com alguém só para não ficar só? Indo mais além: e se a pessoa não é "exatamente legal"? E quando digo "exatamente legal" me uso de eufemismo.

Com o passar do tempo, tendemos a ficar mais exigentes, fato no qual não vejo problema, desde que haja flexibilidade. Contudo, acredito que as pessoas tenham coisas que não negociáveis. Essas "coisas" podem ser crenças, hábitos, planos e assim por diante. 

Cada um sabe de si, sabe o que abala... Ou não? A listinha dos não-negociáveis nem sempre fica clara para cada um - principalmente quando não nos conhecemos direito. 

Estar acompanhado até é uma boa maneira de se conhecer, mas estar sozinho, com seus próprios pensamentos e experiências, ter o seu tempo e um tempo pra você são outras ótimas maneiras e aí você não depende do outro, porque rolos, namoros, cônjuges podem passar, mas você é a única constante na sua vida.

29 de out de 2012

Oh!

Não vou explicar. Nem ter a pretensão de tentar explicar. Também não vou racionalizar, nem montar mapas conceituais. Não vou perder noites de sono, nem noites de festa. Não vou planejar:

- Que seja o will  e não o going to.

Não vou escolher o melhor vestido, mas certamente o melhor sorriso - e a melhor careta, para fazer rir. Não vou expôr o que eu sou na vitrine, para quem quiser ver, mas também não vou me esconder embaixo da cama. Bicho-papão. E não vou ter medo do que está embaixo da cama. Bicho-papão.

Não vou perder a fome, nem me empanzinar com o que quer que seja. O segredo é o equilíbrio, não? Aconteça o que acontecer, a vida vai continuar e vou continuar tocando do meu jeito. Sem crises, sem ostentação, sem promessas (sejam verdadeiras ou não), sem muita preocupação... Vou rir com o inesperado, sem dele esperar muito mais. 

E não sei se dessa vez vou querer entender, talvez eu prefira só sentir...

... vou viver viva vivo.

27 de out de 2012

A cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim

"Para e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha"
(Paralamas do Sucesso)

Quando tinha uns doze anos, costumava ler o jornal aos domingos e me apaixonei pelos textos de Danuza Leão. Com o passar do tempo, suas palavras perderam a graça e o sentido para mim. Não digo que ela escreva mal: é só que simplesmente seus textos não exercem  mais nenhum encantamento, talvez porque eu esteja num outro momento ou porque achei autores que têm mais a ver comigo.

Entretanto, a cicatriz no joelho de Danuza Leão deixou uma marca em mim. Era um texto sobre como homens que reparam em pequenos detalhes (como uma cicatriz no joelho) acabam se destacando, como os homens que reparam e se interessam por você podem ser interessantes. Na verdade, são apontados como "irresistíveis". Eu não iria tão longe, mas é claro que a gente passa a olhar diferente para quem repara na gente - em vez de se colocar como centro do universo.

O olhar do outro confirma nossa existência: ser olhado pelo outro é ser reconhecido como um ser no mundo. E se esse outro repara em pequenos detalhes... Ah! Melhor ainda.

Pode ser uma pinta na nuca, unhas azuis, um canino ligeiramente torto, um trejeito, um vício de linguagem... Qualquer coisa que demonstre que o outro, de algum modo, acabou saindo do casulo, do próprio mundinho e resolveu olhar para o lado - ainda que temporariamente.

E não só olhou, como fez questão de pôr em palavras. Reparar e guardar para si é o mesmo que não reparar: não basta perceber, é preciso mostrar que percebeu, que de algum modo aquilo importa, ainda que seja uma bobagem qualquer. 

São as coisas pequenas, os detalhes que mais importam, pois saem do lugar-comum, do senso comum e exigem do outro um pouco mais do que um rápido exame: exigem atenção, um olhar mais cuidadoso, mais interessado.

E se quem te olha com esse interesse por fora ousar te olhar com esse mesmo interesse por dentro, melhor ainda.


26 de out de 2012

Esquecimento

Acordou - a luz ferindo suas pupilas dilatadas entrava através da cortina leve. Seu corpo estava dolorido e ela sem saber o porquê. Foi abrindo os olhos...

O que eram as marcas roxas no braços? Se encarou no espelho do quarto com apenas um olho, que viu o outro escuro e inchado. O rosto cheio de hematomas.  Inúmeros tons de rosa e vermelho sem o romantismo esperado.

Por dentro, o que sentia?

Três unhas quebradas. O corpo cheio de marcas e de resquícios de um alguém. Alguém tinha estado lá. Estremecimento. E nenhum flash de nada. Encolhimento. Sentia-se pequena, tão pequena. Insignificante.

E uma sensação de vazio tão, mas tão grande que...

Parou por ali e se arrastou para o chuveiro. Atordoada. Não conseguia lembrar, por mais que tentasse - quereria? Sua alma estava dolorida demais e ela sem entender o quê.

25 de out de 2012

Você pede a Deus os limões e Ele te manda um queijo

Pedi a Deus os limões para a melhor limonada. Ele não me atendeu e deve ter tido os Seus motivos, sempre tem. E sei que não sou ninguém para fazer esse tipo de questionamento. 

Em vez disso, Ele me mandou um daqueles queijos brancos e redondos, bem saborosos e, de minha parte, foi só tirar a faca da gaveta da cozinha.

Pronto: eu tinha a faca e o queijo na mão. E se fiquei sem a limonada, melhor assim. Nem sempre o nosso caminho é aquilo o que planejamos. Nem sempre as oportunidades que imaginamos são as melhores. Nem sempre nós temos o que pedimos, mas virão outras coisas que podem nos fazer igualmente felizes - ou ainda mais. 

E gosto muito de queijo...

24 de out de 2012

Mergulhando [ou não]

Era um dia de sol, muito sol.

Tavinho olhou de longe a piscina verde-água. Olhava desconfiado e foi se aproximando bem devagar, como se ela pudesse oferecer algum grande perigo. 

Foram uns dez minutos até chegar até a borda, mesmo não estando longe dela. Olhou mais um pouco e arriscou colocar o pé para ver a temperatura. 

O pé não: o dedão. O dedão do pé. Friiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia fria. A água estava fria. Talvez entrasse, talvez não. Talvez decidisse ainda naquele dia e enquanto pensava...

Joãozinho veio correndo e se lançou como uma bala, um tiro. Splash! Os respingos gelados assustaram Tavinho, mas o que mais o assustou foi o corpo de Joãozinho que logo apareceu boiando: ele não sabia nadar, tinha mergulhado sem saber nadar. 

Tavinho nunca mais quis entrar em piscina.

Era um dia de sol, muito sol.

22 de out de 2012

Versinho Comunicativo



Quem vê
Pensa
- Tanta coisa...

E não pergunta,
Mas se perguntar
Não respondo.

E seu eu desenhar,
Não entende.

21 de out de 2012

Solidão que nada!

Ela entrou no metrô e logo o viu sentado com seu cabelo bagunçado. My cup of tea. Foi se aproximando devagar para não cair e fazer feio. E estava tão bonita - e falante. Se ele sorrisse de volta, puxaria papo. Tirou os óculos escuros. Falaria sobre literatura. Ele também gosta de Proust, ela olhou indiscretamente dentro da sacola da Livraria Cultura que ele trazia entre os pés.

Começariam a conversar despretenciosamente sobre o clima - e sobre Proust, naturalmente. Eles perceberiam a química logo de cara e, estando os dois sem compromisso, iriam tomar um café. A conversa fluiria como acontece poucas vezes na vida, com direito aquela sensação engraçada de já conhecer a pessoa  há muito tempo.

Trocariam números de telefone - porque nenhum dos dois gosta de internet - e se falariam algumas vezes por semana. Sairiam mais outras vezes e continuaria a vontade de se verem. Em certo momento, decidiriam que aquilo valia a pena. Iriam morar juntos, tocar a vida juntos. Perceberiam-se diferentes, mas também que funcionavam bem quando estavam juntos. E fariam suas apostas nesse simples fato.

O metrô parou na estação Consolação e ela desceu tristonha do vagão: ele não a tinha visto, pois estivera ocupado demais com seu celular postando no facebook:

"Tão sozinho!"

Ouvindo "Solidão que nada" (Cazuza)

20 de out de 2012

Em seu devido lugar (e outras variações sobre o tema)

Vi a menininha dando cambalhotas e estrelas no tatame. Ela rodopia, estica, alonga. Já deu o horário, mas a aula não começou (a professora conversa com uma aluna) e eu esperando sem minhas sandálias.

O sol lá fora é morno e já é de tardezinha. A menininha se levanta - vai rodopiar em outra parte. De minha parte, tomo seu lugar e me deito no tatame. Estico, alongo - e penso. Não pensava nisso, não pensava assim, mas, mais do que nunca, penso sobre o lugar que ocupo no mundo.

Não, não é debaixo da escada esperando uma carta de Hogwarts chegar. Não, não é no fogão ou no tanque esperando o marido chegar. Não é esperando nada nem ninguém chegar. Não, não é no canto da sala esperando a poeira baixar. Não, não é com o grito morto a machadadas pelo silêncio. Nem com os álbuns antigos e essa nostalgia doente que anda assolando as pessoas. Nem entre as dez pessoas mais bondosas e justas. Nem entre as dez mais belas e famosas. Nem entre as dez mais inteligentes e influentes.

Na dúvida, sempre vou pelas negativas, por eliminação. Sei qual não é o meu lugar, mas creio que nem precisaria de tantas negativas para saber. Acho que todo mundo sabe lá no fundo, só que, muitas vezes, não se quer olhar.

Talvez um dos segredos da vida seja saber se colocar em seu devido lugar - e colocar os outros também, cada um em seu lugar. Pode ser feio isso de colocar as pessoas em seu devido lugar, mas é algo que por vezes é preciso fazer, já que elas não o fazem (ou não sabem fazê-lo?).

Também é feio porque é categorizar pessoas e eu disse a uma amigo que fazer isso é ser simplista e a vida e as pessoas são complexas. Olha, desconfio que nem todas e algumas só te oferecem as bordas. A gente vai até onde dá, não? 

Categorizar é errado, mas dá uma impressão de segurança, de você saber onde está pisando. "Impressão" porque por vezes é falsa e fim de papo. E quando é verdadeira? E quando você entendeu, ainda que superficialmente, como funciona determinada pessoa e viu que ela não deve nem precisa ocupar um lugar na sua vida? Nossa, isso soou pesado, acho, mas poderia poupar muita coisa, muita gente, muito tempo. Entretanto, talvez se perdesse muito em aprendizado de vida, não sei.

Algum fato ou acontecimento sempre me lembra do meu lugar no mundo. Fisicamente, ocupo pouco espaço. No fundo, bem sei o que me cabe nesse mundo (o que não impede que ele me peça outra coisa amanhã, pois já me pediu coisa que nem pede mais...). 

Notei a aranha no teto. Discreta e honesta. Quantas coisas não se deixa de ver por não se saber olhá-las? Se eu não estivesse deitada, olhando para o teto, nunca a teria notado. Aquela aranha discreta e honesta. Ela estava em seu devido lugar, junto à sua delicada teia.

Foi engraçado sentir que tudo estava em seu devido lugar: a menininha em frente ao espelho, a aranha em sua teia, a Terra em seu eixo. E eu estava exatamente onde deveria estar: deitada num tatame, os cabelos num desalinho só, esperando pela aula de dança numa tarde recheada de sol.


19 de out de 2012

Sobre cordas, terapia e coveiros.

A: - Eu não vou mentir: é despeito da minha parte.

B: - Sempre achei que a gente aprendesse a lidar com a rejeição com o passar do tempo, mas...

A: - Acho que é bem por aí, só que esse aprendizado talvez tome mais tempo do que a gente gostaria. Ao menos mais tempo do que eu gostaria. O ego humano é uma porcaria!

B: - Certas coisas não deveriam incomodar, mas incomodam. Também nunca sei o que fazer com elas e acabo me sentindo mal por me sentir mal...

A: - Nossa, melhor providenciar um terapeuta.

B: - Nada. Só preciso deixar a poeira baixar e guardar certas coisas na memória.

A: - Coisas como não dar corda para quem não sabe pular?

B: - E também que cada um faz o que quiser com a própria vida e isso não é problema meu.

A: - Cada um cava a sua própria cova.

Pausa.

A: - Que horror o que eu disse!

B: - Horror é entregar a pá para o outro e convidá-lo a cavar para você.